Análise – Deadpool: A Guerra de Wade Wilson


Como MILHÕES de nerds por esse mundo afora, você deve estar morrendo de vontade de ver o filme do Deadpool, no qual Ryan Reynolds encarna o personagem e só nos trailers já conquistou vários corações. Porém, você conhece a real história do Mercenário Tagarela? A gênese de seus poderes? De sua loucura? Até onde vai a esquizofrenia de Wade Wilson?

 
Pois bem, por isso trago a você a minha análise de uma revista que “meio que” conta a história de origem dele de um jeito muito original (o “meio que”, você entenderá depois). E não é só por ser uma revista non-sense ou por contar a misteriosa origem, mas também por ser, na minha humilde opinião, a melhor história do Deadpool e talvez até uma das melhores da Marvel.

Tal espetáculo é “Deadpool – A Guerra de Wade Wilson” (Deadpool: Wade Wilson’s War), dividida em quatro edições, uma minissérie lançada pela Marvel em 2010, tendo Duane Swierczynski como escritor, Jason Pearson como ilustrador, Paul Mounts como colorista e Joe Quesada como editor chefe. 

 
Para instigá-los vejamos a Sinopse: “Quem é o homem por trás da máscara? Ele realmente foi um agente secreto? Mercenário, Dominó e Silver Sable realmente foram seus companheiros de equipe? Qual é a real história do soldado Wade Wilson? Um sangrento massacre em Sinaloa, no México, deixou centenas de mortos e o desgraçado soldado Wade Wilson tem muito o que explicar.”
 
Interessante, não? Então vamos às considerações sobre esta obra. Num esquema “morde e assopra”, primeiro irei listar o que não me agradou muito na HQ, convenhamos, nada é perfeito, nem os mestres Allan Moore (com seus extensos textos) ou Frank Miller, logo, com um mero herói como Deadpool não seria diferente. 
 
Uma coisa que pode desagradar muito os leitores é o fato de a história ser muito extensa no sentido dela ter sido muito “esticada”. Não pelo número de páginas ou edições e sim por que ela não é longa o bastante para preencher as quatro edições. Afinal de contas, toda a história se passa em um único julgamento. Mas eu compreendo o recurso usado, uma vez que o arco vai ascendendo de maneira a criar cada vez mais suspense para o leitor e chega a certos pontos que sua mente fica tão torcida, que você volta e lê de novo o que foi revelado. Além disso, a história é pontuada por muitos flashbacks e cenas em outros cantos, como a situação de Dominó presa. Novamente dizendo, ainda que “enrolado”, é um recurso para a história por dois pontos: no fim você descobre que Deadpool quer mesmo enrolar. Em segundo, isso é ótimo por se tratar de uma história sobre a loucura, ou seja, a história tem que te dar um nó na cabeça, tem que te deixar…louco.
 
Sobre a ilustração, de certa forma não é uma crítica quando digo que não tem nada de “original”, não é uma obra prima pelo desenho. Aliás, tem até alguns defeitos dependendo do gosto. Se você é um cara mais Alex Ross, vai detestar a ilustração, pois a ela serve mais como uma caricatura das cenas que Wade Wilson narra do que como um recurso de ambientação. Há muito exagero nas formas físicas, rugas, gordura, seios e bundas (cara, é serio, é uma história do Deadpool). Todavia são interessantes tais caricaturas para revelar o maniqueísmo da história, como os senadores com caras com cascatas de rugas, papos largos e cabelos brancos, mostrando o “conservadorismo” em pessoa.
 
Da minha parte, eu não ligo para ilustração quando a história é boa, por isso só digo que não gostei muito da representação da Silver Blade, que sempre linda e de curvas sensuais, ficou algo exagerado sem motivo e mal desenhado, além do Mercenário que é retratado de maneira tão “psicótica” (sério, parece que ele usou crack), que perde a graça ao deixá-lo surreal e por sempre estar com esta expressão. 
 
 
Agora vamos falar de coisa boa? (não, não é Tekpix). A parte boa mesmo da HQ é a história e a melhor forma de defini-la é assim: Roteiro? Inteligente. Desenvolvimento? Digno. Ganchos entre as edições? Viciantes. Humor irônico? Excelente. Plot twists? Ainda estou limpando o meu cérebro do teto. Final? Magnifico. Reflexão final? Você tem vontade de matar e beijar Deadpool.
 
Diferente de qualquer história de origem, nessa história tudo é um longo flashback, no qual o nascimento de Wade Wilson só aparece mesmo na segunda edição. Mas não é só por ser um flashback, é principalmente por ser um flashback forçado, afinal de contas ele tem de testemunhar perante senadores.
 
O começo, no qual ele deve justificar-se sobre o massacre que sua equipe cometeu, é bom para mostrar não só como a equipe dele operava, mas faz uma alta crítica ao governo, pois eles são os que resolvem os problemas que os próprios EUA criaram ao mandarem uma equipe de militares que se corrompeu, ou seja, são a borracha dos militares.
 
 
Além disso, na parte visual, mesmo não tendo a melhor das ilustrações, algo que me agradou muito foram as capas que parecem anúncios de jornais e revistas sobre reportagens polêmicas, algo que ocorre muito na mídia sensacionalista atual. 
 
Sobre a história de origem, vou contar o porquê disse no começo que vocês iriam “meio que” entender história de origem dele. O diferencial é que… são duas versões da história. Isso mesmo que você leu, embora ambas as versões se pareçam muito elas tem diferenças. Uma das versões é contada pelo próprio Deadpool, mas nela é claro que o Mercenário Tagarela dá uma romanceada e deixa com um tom mais épico, algo que é óbvio que ele faria. A que “parece” oficial é contada pelos responsáveis pelo programa “Arma-X” que estão investigando o caso. Mesmo essa última parecendo a mais realista, no final você descobre que tem de duvidar desta também. Por fim, nestas duas versões o mais legal é o fato delas serem contadas ao mesmo tempo, e os desenhos das versões do flashback se intercalam, como na cena onde Wade está em uma mesa de cirurgia: o quadro esquerdo está todo corajoso, sua versão, e na versão dos investigadores, ele está se cagando de medo.
 
Isso acaba entrando em outro ponto muito bom do texto da história. A narração do Deadpool é tão boa, mesmo que extensa, que você se diverte não só com as piadas, mas com o meio em que ele aborda certos acontecimentos, fazendo merecer o apelido de Mercenário Tagarela. Isso é tão bem feio que você até mesmo esquece que está lendo sobre o julgamento dele quando ele fala do passado. Aliás, quando ele narra os flashbacks isso é algo à parte, pois não bastava ele quebrar a quarta parede de várias formas, como falando com o leitor ou lembrando que está em uma revista (inclusive no início do julgamento ele pede para ser chamado de Deadpool por que ninguém iria querer uma revista de um Sr. Wilson), ele vai além quando mistura presente e passado quando, nos flashbacks, ele fala sozinho narrando, os companheiros de equipe chamam sua atenção e ele diz estar narrando um flashback.
 
 
Já que estou falando da famosa arte de quebrar a quarta parede, algo que Deadpool sempre se utiliza, deixe-me lhe avisar de algo. Provavelmente essa HQ tem a “Melhor” quebra de parede de todas. Toda a história é basicamente sobre Deadpool estar ciente que está em uma HQ e isso vai a pontos tão inacreditáveis que você chega a pensar que na verdade ele não está em uma só pensa que está, pois é doido, chega até mesmo a acreditar que ele não quebra parede coisa alguma, só está “literalmente” falando sozinho. E não é à toa que o roteiro mexe tanto com isso, pois a história é exatamente sobre isso, loucura, razão e noção de realidade. Prova disso é a história ser de Duane Swierczynski, pois como estamos tratando de um herói louco com uma história “surrealista”, nada melhor que alguém que já escreveu sobre outro herói louco da Marvel, o Cavaleiro da Lua.
 
“Noção de realidade”. Se você é um nerd com um pouco de bagagem e ficou atento quando disse sobre plot twist, já deve estar imaginando algo. Pois bem, você não está errado, a história é algo MUITO, mas MUITO psicológica e vai te deixar maluco se você tentar entender. É algo bem na pegada de “Clube da Luta”, “A Origem”, “Matrix”, “Vanilla Sky”, “Sr. Niguém”, etc. Isso foi o principal motivo da trama me surpreender, porque, afinal de contas, É O DEADPOOL! Você espera humor, violência e maluquices, não algo tão profundo e reflexivo. A pancada vem tão silenciosa que até a terceira edição você acha ser uma história comum, mas depois seu cérebro derrete. São tantas reviravoltas, tantas versões da história, tantas revelação que você pira. 
 
E no final, no finalzinho meu caro…hahaha…lá que você diz WOW!!!. De verdade, se você detestar a história, ao menos chegue até o final da quarta edição, por que é algo tão surpreendente, algo tão profundamente reflexivo, que você vai acabar de ler e vai demorar dias para digerir. Se todas as quatro edições fossem um filme, diria que as três primeiras partes do filme seriam de um diretor de comédia e ação qualquer, mas a quarta parte seria como se David Lynch e Christopher Nolan a dirigissem.
 
 
Resumindo tudo, minha definição de “Deadpool – A Guerra de Wade Wilson”: Tem um começo interessante, uma metralhadora de revelações e enganações, uma “Surpresa Surreal” no fim e uma pitada bem dosada de filosofia existencial.

Vale a pena ler, não por ser fã ou para o filme, mas para a vida. Mais que recomendo, pois é sem dúvida algo que mostra que até um personagem da “zueria” tem coisas “profundas” para se ler.

Agora é só esperar para ver o filme e torcer para ser +18

Até a próxima…
 
Título: Deadpool: A Guerra de Wade Wilson
Gênero: Ação/Comédia
Autor: Duane Swierczynski
Editora: Marvel
Edições: 4 (Quatro)
Publicação Original: 2010
Link: Indisponível





Ailton Borges

"Eu caminhei pela superfície do sol, testemunhei eventos tao mínimos e rápidos que mal podem-se dizer que ocorreram." -Dr. Manhattan