O Girl Power na Disney Atual

Talvez a principal marca da Disney ao longo de sua história sejam as suas personagens femininas, representadas, principalmente, pelas suas princesas. Embora hoje a empresa seja dona de marcas como Star Wars, Pixar e Marvel, foi na magia e no encanto que envolvem as suas princesas que a Disney se fixou no consciente coletivo. As três primeiras personagens a se estabelecerem nesta categoria foram Branca de Neve (1937), Cinderela (1950) e Bela Adormecida (1959). Características comuns às três: eram discretas, delicadas, foram salvas pelos seus respectivos príncipes e viveram felizes para sempre em suntuosos castelos. Eram reflexos da sociedade na primeira metade do século 20, onde a mulher era vista como dona de casa, aquela que cuidava dos filhos e esperava o marido chegar do trabalho com o jantar feito. 

Conforme as décadas passavam e a Disney enfrentava um de seus piores momentos criativos após a morte de Walt Disney (1901-1966), a empresa voltou com força máxima com sua primeira “princesa moderna”: Ariel, do filme A Pequena Sereia (1989). Ariel era diferente de suas antecessoras. Sua curiosidade, sua vontade de enfrentar o desconhecido e seus sacrifícios pessoais a tornaram um marco dos estúdios Disney. Embora o príncipe Eric seja um catalisador importante na vida de Ariel, já se percebia ali uma mudança no papel das princesas da casa do Mickey.

Durante a década de 90 mais princesas foram apresentadas ao público. Bela, de A Bela e a Fera (1991), era estudiosa, voluntariosa e seu amor ao pai era incondicional. Jasmine, de Aladdin (1992), era rebelde, queria escolher seu próprio marido e batia de frente com as ordens de seu pai. Pocahontas (1995) tinha o espírito livre, viveu anos sem se importar com o sexo oposto e enfrentou os estrangeiros em seu território. Mulan (1998) foi à guerra, também se sacrificou pelo seu pai e durante boa parte do longa tem a sua feminilidade encoberta pelo disfarce de soldado chinês. A Disney percebeu as mudanças que as mulheres tiveram durante as décadas e moldaram suas personagens femininas de acordo. De submissas e guardiãs do lar, as mulheres passaram a ter voz ativa na sociedade, muitas vezes colocando sua vida profissional à frente da pessoal, começaram a chefiar empresas e a comandar países, sendo que muitas vezes filhos não estavam em seus planos.

O salto final veio nos anos 2000, onde o empoderamento feminino atingiu seu auge na Disney. Primeiro Tiana, de A Princesa e o Sapo (2009), era negra, trabalhava e era independente. Depois Rapunzel, em Enrolados (2010), era decidida, determinada e curiosa. Merida, de Valente (2012), era rebelde, não queria exercer as funções de princesa e muito menos se casar. O ápice veio em Frozen – Uma Aventura Congelante (2013), onde duas princesas, Elsa e Anna, comandaram a história, tornaram os personagens masculinos meros coadjuvantes e redefiniram o conceito de amor verdadeiro. Mais recentemente, Judy Hopps foi a estrela de Zootopia – Essa Cidade É o Bicho  (2016), uma personagem intrépida, corajosa e que supera preconceitos para seguir seus sonhos. Moana  (2016) foi o último grande exemplo. A personagem era aventureira, tinha espírito de liderança, rejeitava o título de princesa e, pasmem, não tinha interesse amoroso para a personagem no longa.

Essa mudança no perfil das personagens femininas da Disney se deve a uma crescente necessidade que a empresa sentiu por parte do público feminino de se sentir representado nas telonas. As garotas e mulheres não querem mais se ver em filmes sendo representadas por personagens fracos, sem personalidade e que constantemente precisam ser salvas por seus companheiros masculinos de tela. Veja Elsa por exemplo. A personagem é a única com poderes em seu longa, é ela que catalisa os acontecimentos da história, não precisa ser salva por ninguém e não há nenhum indício que sua vida amorosa seja uma prioridade para ela. Essa personalidade de Elsa, junto com a história e outros elementos do filme, tornaram Frozen – Uma Aventura Congelante a animação que mais arrecadou em bilheteria mundialmente, com quase US$ 1,3 bilhão de dólares, ocupando atualmente a nona colocação entre as maiores bilheterias da história, sem levar em conta a inflação acumulada.

Dos 19 filmes lançados pela Disney desde 2000, levando-se em conta apenas aqueles sob o selo Walt Disney Animation Studios, 7 longas, ou 36,8%, possuem personagens femininas como protagonistas. Levando-se em conta as décadas de 80 e 90 essa porcentagem cai para 28,6%.

Talvez o maior exemplo de Girl Power na Disney atualmente seja na franquia Star Wars. Primeiro Rey, uma personagem corajosa, voluntariosa e que sabe se defender, foi apresentada como a principal personagem da nova trilogia (2015, 2017 e 2019) em Star Wars – O Despertar da Força (2015). Rey é a primeira Jedi a ter destaque na franquia e tê-la como aquela onde a Força despertou e a grande esperança da galáxia teve tamanho impacto no público que a demanda por suas bonecas foi maior que a oferta disponível, mostrando força e representatividade maiores do que a própria Disney esperava em um primeiro momento. A expectativa pelo o que a personagem pode apresentar só aumenta a expectativa pelo próprio oitavo filme da franquia. Mais recentemente, em Rogue One – Uma História Star Wars (2016), novamente uma personagem feminina foi a protagonista da história. Jyn Erso foi uma personagem de personalidade e voluntarismo, com entrega à causa dos rebeldes. Mais curioso ainda é que a personagem nunca tinha sido apresentada antes, ou seja, a princípio poderia ter sido um homem o protagonista do filme. Mas, novamente, a Disney achou melhor aumentar a representatividade feminina na franquia.

De todas as marcas que a Disney controla apenas a Marvel, nos cinemas, fica devendo quando a questão é o Girl Power. Embora Viúva Negra e Feiticeira Escarlate façam parte do Universo Cinematográfico da Marvel (MCU), nenhuma delas teve seu próprio longa. O primeiro filme do MCU protagonizado por uma super-heroína será Miss Marvel, programado apenas para 2019. E mais: em todos os 14 filmes do MCU lançados até hoje o vilão foi um personagem masculino. Isso deve mudar em novembro onde Hela deve ser a vilã de Thor – Ragnarok. Mas ainda é muito pouco para uma empresa que dá tanto destaque e poder para as mulheres em outras marcas sob o seu domínio.

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Derek Moraes

Cinéfilo de carteirinha. Nerd de plantão para preencher as mentes ávidas por informações e conhecimento. Especialista em transformar simples conversas em viagens a Hogwarts, Terra Média, Westeros e uma galáxia muito, muito distante.