Crítica – Zootopia: Essa Cidade é o Bicho

[SEM SPOILERS]

Sinopse: A primeira coelha oficial de polícia da história Judy Hopps (Ginnifer Goodwin) é designada para trabalhar em Zootopia, a grande metrópole onde presas e predadores mamíferos vivem em harmonia. A coelha terá que contar com a desconfiança do Chefe Bogo (Idris Elba), um búfalo, e do Prefeito Leodore (J.K. Simmons), um leão, enquanto tenta desvendar uma série de desaparecimentos na cidade, enquanto é ajudada pela Vice-Prefeita Dawn (Jenny Slate). Para resolver o mistério, Judy precisará unir esforços com o malandro Nick Wilde (Jason Bateman), uma raposa vermelha, inimigos mortais dos coelhos. 


Desde 2006, quando a Disney comprou a Pixar por US$ 7,4 Bilhões, John Lasseter assumiu a chefia de criação das animações da casa do Mickey e continuou com a sua mesma função no estúdio adquirido. Ou seja, todas as animações em desenvolvimento tanto na Disney quanto na Pixar, que continua um estúdio com certa independência criativa de seu dono, passam pelo crivo de Lasseter. E é notável o aumento da qualidade dos longas animados produzidos pela Disney principalmente nos últimos cinco anos. Na década passada o estúdio amargou fracassos de crítica e, principalmente, de bilheteria como O Galinho Chicken Little (2005) e A Família do Futuro (2007). Depois que Lasseter começou a ter total controle criativo nas animações da Disney, o estúdio lançou dois filmes excepcionais, Detona Ralph (2012) e Frozen – Uma Aventura Congelante (2013), e dois bons longas, Enrolados (2010) e Operação Big Hero (2014). A Disney parece estar voltando ao seu auge criativo e imenso impacto midiático que marcou todos aqueles que viveram nos anos 90, década responsável por nada mais nada menos que A Bela e a Fera (1991), Aladdin (1992) e O Rei Leão (1994). Em Zootopia mais um passo é dado no sentido de consolidar esta nova fase da Disney. E o resultado final é brilhante e, o mais importante, muito divertido. 


O diretor americano Byron Howard é um veterano da Disney e da Pixar, tendo co-dirigido Bolt – Supercão (2008) e Enrolados (2010). Já o também americano Rich Moore tem a sua carreira praticamente toda construída na televisão, dirigindo episódios de Os Simpsons e Futurama. Para o cinema, Moore faz a sua estreia na função de co-diretor neste Zootopia. E o casamento de ideias e bagagem de Howard e Moore é perfeito neste novo longa que possui as lições morais que os filmes da Disney adoram transmitir, junto com o coração das animações da Pixar e o ritmo frenético e as piadas típicas de televisão. Zootopia também marca pontos por novamente a Disney nos apresentar a uma personagem feminina forte. Se em Frozen – Uma Aventura Congelante (2013) tínhamos duas princesas que não precisavam dos príncipes para terem uma razão de existir e em Star Wars – O Despertar da Força (2015) Rey mostrava que a Força era forte em uma protagonista feminina independente pela primeira vez na franquia, neste novo longa temos uma coelha que é enganada pela raposa, mas que em seguida engana o enganador de volta. Judy Hopps é uma personagem rica, decidida, madura e determinada. Confia nas pessoas, mas não pensa duas vezes em tomar as atitudes necessárias se a pessoa não se mostrar digna de confiança. E usa a chantagem para conseguir algo, desde que sua atitude seja em prol de um bem maior. Ao que parece, as personagens femininas fortes vieram para ficar na cultura pop, tão carente deste tipo de personagem, e Judy é apenas mais um importante exemplo neste contexto. 


A dinâmica de Zootopia é uma das maiores atrações do longa. A cidade, apenas habitada por mamíferos, é ricamente trabalhada, em uma direção de arte inspirada e primorosa, mostrando como cada animal, com suas particularidades, se adaptaram à vida urbana. Temos os carros adaptados para cada espécie, as profissões mais viáveis para cada espécie, lugares comuns adaptados às diferentes espécies. Tudo muito rico e detalhado, enchendo a tela de pequenos detalhes que garantem a diversão de quem assiste. As referências são inúmeras e apenas os mais adultos devem pegá-las, garantindo risadas instantâneas. Desde O Poderoso Chefão (1972), passando por Frozen – Uma Aventura Congelante (2013) e chegando em Breaking Bad (2008-2013), todas as referências são orgânicas e não parecem forçadas, não quebrando o ritmo da narrativa. A narrativa, aliás, que possui um ritmo agradável e frenético na medida certa. Começamos com Judy Hoops criança, depois treinando na academia de polícia, entrando para a corporação e iniciando sua carreira. Em nenhum momento o filme se torna enfadonho, cansativo ou mesmo sem graça. Quando não são os adultos rindo de alguma referência descoberta, são as crianças rindo de alguma piada mais simples ou uma sequência com humor físico. 


Como um bom filme da Disney, Zootopia possui a sua mensagem a passar. E aceitar as diferenças é a bola da vez. Em uma cidade povoada por seres de espécies diferentes com necessidades diferentes, o preconceito é algo natural. Desde a coelha que quer ser policial até a Vice-Prefeita que é uma ovelha, o preconceito e o desdém das espécies ‘superiores’ é algo latente e exteriorizado. O lema da cidade ‘onde todos podem ser o que quiserem’ soa tão utópico quanto a própria concepção do local, habitado por presas e predadores. Mas o roteiro é inteligente ao reverter as expectativas do espectador. A partir de determinado momento do filme são os seres menores, normalmente as presas, que começam a discriminar os animais maiores devido ao comportamento de alguns poucos predadores, mostrando que o preconceito não é unilateral e sim circunstancial. O maior exemplo de relação frágil e sempre no fio da navalha é aquela entre Judy e Nick, que parece a ponto de explodir. Mas o tempo e a convivência leva um a perceber as qualidades do outro, fazendo com que a coelha seja vista como um animal além de suas características frágeis a raposa além de sua malandragem, criando animais tão ricos psicologicamente quanto humanos.


O filme possui poucos problemas, talvez o maior deles seja a virada do segundo ato para o terceiro, onde ocorre algo que faz com que a amizade entre Judy e Nick fique estremecida. A maneira como isso é feito, embora seja orgânico, não é convincente. Fica com a impressão de que é apenas um mecanismo do roteiro para criar uma tensão na relação entre os dois animais. Este tipo de mecanismo é comum para levar a um terceiro ato mais aberto e com o nível de tensão elevado.  Mas não é por ser comum que ele se torna convincente. Também senti falta das outras espécies de animais. Em nenhum momento é citado o que aconteceu com os peixes, anfíbios, répteis e aves. Eu imagino que seja para evitar dar mais trabalho aos animadores. Se criar uma cidade adaptada aos mamíferos já deve ter dado um trabalho gigante para a equipe de animação da Disney, incluir outras espécies apenas complicaria ainda mais a criação daquele mundo. Outra possibilidade é estarem guardando estas outras espécies para eventuais continuações de Zootopia. 

Visualmente Zootopia é belíssimo, muito colorido e com uma animação fluída e detalhista ao extremo, como, por exemplo, um palito de sorvete em que as ranhuras do objeto são mostradas. Um detalhismo típico da Pixar e, agora, também da Disney. A trilha sonora agrada e conduz bem o filme, embora o maior destaque fique por conta da faixa ‘Try Everything’ cantada pela Shakira, que também dubla uma gazela que é artista pop na cidade de Zootopia. A direção de arte, como já citado, é o ponto alto do filme, traduzindo para a tela tudo o que os roteiristas queriam transmitir sobre a complexidade e a riqueza da cidade. A comédia do filme funciona absolutamente bem, com destaque para a hilária sequência que se passa no Departamento de Trânsito de Zootopia, onde todos os funcionários são bichos-preguiças. Desde já, uma das melhores sequências do ano. Eu, particularmente, não sou fácil de se fazer rir no cinema principalmente pela falta de graça que a maioria das comédias de hoje em dia possuem. Mas em Zootopia eu ri muito, dando gargalhadas na sequência com os bichos-preguiças. E mesmo já tendo visto quase toda a sequência nos trailers exibidos. A montagem funciona ao não deixar o ritmo cair, prendendo a atenção dos espectadores, principalmente as crianças que precisam disso para não perderem o foco. 

A dublagem do longa foi feita em São Paulo, o que já está se tornando um padrão nos longas da Disney, que anteriormente utilizava apenas estúdios do Rio de Janeiro. Apenas Mauro Ramos, o dublador de Pumba e que trabalha na Cidade Maravilhosa, está em Zootopia. Dos últimos cinco longas da Disney, apenas Enrolados (2010) foi dublado no Rio de Janeiro. Mônica Iozzi dubla Judy Hopps e Rodrigo Lombardi dubla Nick Wilde. O trabalho dos dois é eficiente e em nenhum momento o espectador percebe que não é um profissional que está por trás daquelas vozes. O que é um ponto positivo para a Disney que errou feio na escalação de Luciano Huck para dublar o principal personagem masculino em Enrolados (2010). Lombardi consegue colocar uma paz e uma cadência nas falas de Nick que combinam perfeitamente com o estilo de vida da raposa. Já Mônica é feliz ao colocar otimismo, doçura e determinação em Judy.


Contando ainda com uma trama investigativa que move a narrativa para frente e deixa o espectador apreensivo e apostando em culpados, na sua maioria errados, Zootopia – Essa Cidade é o Bicho mostra o poder da Disney em contar boas histórias, relevantes tematicamente, com uma técnica de animação primorosa e um humor pontual, mas eficiente, tornando o longa, desde já, um filme que deve ser assistido. 

NOTA: 9,0

 


INFORMAÇÕES

Título: Zootopia – Essa Cidade é o Bicho (Zootopia)
Direção: Byron Howard e Rich Moore
Duração: 108 Minutos 
Lançamento: Março de 2016
Elenco: Ginnifer Goodwin, Jason Bateman, Idris Elba, J.K. Simmons e Jenny Slate.
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Derek Moraes

Cinéfilo de carteirinha. Nerd de plantão para preencher as mentes ávidas por informações e conhecimento. Especialista em transformar simples conversas em viagens a Hogwarts, Terra Média, Westeros e uma galáxia muito, muito distante.