Crítica – Victor Frankenstein

[SEM SPOILERS]
Sinopse: Na final do século XIX, o corcunda palhaço de circo, que posteriormente será chamado de Igor Strausman (Daniel Radcliffe), chama a atenção do ambicioso estudante de medicina Victor Frankenstein (James McAvoy) pelos seus conhecimentos sobre o funcionamento do corpo humano. Um incidente envolvendo a trapezista Lorelei (Jessica Brown Findlay) e o passado obscuro de Victor acabam chamando a atenção do investigador da Scotland Yard Roderick Turpin (Andrew Scott). Os experimentos da dupla de cientistas, que envolvem obter vida a partir da morte, acabam por interessar o ganancioso Finnegan (Freddie Fox).
O livro Frankenstein escrito pela inglesa Mary Shelley e publicado em 1818 é uma das obras literárias mais influentes de todos os tempos. O monstro concebido a partir de partes de cadáveres diversos e “ressuscitado” pelo médico Victor Frankenstein está no inconsciente coletivo desde sempre, mesmo que muitas vezes não saibamos a origem exata do personagem. Desde o seu lançamento, a obra tem sido adaptada incansavelmente para diversas mídias como teatro, cinema e televisão. Possivelmente a encarnação mais clássica do personagem seja no filme de 1931 chamado Frankenstein e produzido pelo estúdio Universal. Sendo a estrela principal ou coadjuvante, a verdade é que Frankenstein se encontra naquele nicho de personagens que parece não ter mais o que contar sobre eles, já que aparentemente todas as possibilidade de histórias já foram esgotadas. O que vemos neste Victor Frankenstein é mais do mesmo, embora o fato da narrativa ser contada a partir do ponto de vista de Igor traga um ar de novidade que agrada de início, mas não é o suficiente para segurar as quase duas horas de projeção.
O diretor escocês Paul McGuigan tem uma carreira de mais de quinze anos, porém os seus sucessos estão praticamente nos seus trabalhos para a televisão, onde dirigiu alguns episódios da nova versão de Sherlock Holmes (2010 – presente). No cinema, McGuigan dirigiu filmes como Xeque-Mate (2006) e Heróis (2009), sendo que os dois passaram batidos pelo grande público. Neste Victor Frankenstein o diretor faz um trabalho regular, não comprometendo, mas também não fazendo nada que o diferencie da média. McGuigan mostra potencial logo na primeira sequência de ação que se passa no circo, alternando câmera lenta com correria de maneira eficiente, criando uma sequência ágil e dinâmica. A sequência de ação do terceiro ato é normal, não compromete, mas não empolga, deixando uma última impressão abaixo da média no espectador. Ao menos o diretor consegue interpretações convincentes da dupla principal, que praticamente carrega o filme.
 
O roteiro é eficiente em mostrar ao espectador toda a genialidade de Igor e Victor, principalmente nas sequências que se passam no enorme laboratório que serve de locação para praticamente todo o segundo ato do longa. A degradação psicológica de Victor durante o filme é mostrada de maneira gradual, soando crível para quem assiste. O primeiro ato que estabelece Igor, sua origem e seus sonhos e Victor com sua ambição e seus planos é agradável de acompanhar porque mostra o potencial que as duas mentes aguçadas podem atingir. A batalha de ideologias entre Victor e sua negação a Deus e o detetive Turpin e sua devoção rende bons diálogos. O romance entre Igor e Lorelei é forçado, já que nenhuma intimidade entre os dois é mostrada antes dos eventos que levam a esta história, parecendo que tudo acontece em dois ou três encontros. O fato de Victor estar tentando realizar o seu experimento por um trauma do seu passado é jogado na história, parecendo uma necessidade do roteiro em dar credibilidade às ações do cientista. A aparição do pai de Victor, interpretado pelo ator Chales Dance, é desnecessária e não possui função nenhuma na história, ficando a impressão que era apenas para que o ator voltasse a interpretar algo parecido com Tywin Lannister. O personagem de Freddie Fox é o máximo que o longa tem de um vilão, embora não fosse necessário um. Finnegan aparece na trama do nada, possui uma motivação rídicula, faz apenas um ato relevante e depois desaparece como se nunca tivesse existido. O detetive interpretado por Andrew Scott passa metade da trama no seu escritório pensando no que fazer, e quando tenta fazer algo, comete a burrice de invadir o laboratório sozinho, sendo que havia meia dúzia de policiais do lado de fora. A criatura que dá nome ao filme só aparece no terceiro ato, participa da sequência de ação final e só. Não conseguimos entender se o monstro possuiu consciência, se ele é apenas uma máquina de matar, nada. E a maior pergunta de todas: por que Victor precisa construir seres a partir de pedaços de outros seres mortos? Há algum problema em pegar um chimpanzé morto e fazer seus experimentos? Nada justifica a necessidade que o cientista possuiu de construir seres.
Os efeitos especiais são eficientes, se destacando a criatura que parece um chimpanzé criada por Victor, o terceiro ato que se passa em um castelo escocês e envolve raios, balões e várias estruturas e a própria criatura Frankenstein. A fotografia é mais eficiente nas sequências que se passam no circo e também no castelo escocês, já que quando a história se passa em Londres, é utilizada a tradicional fotografia escura que ajuda a retratar a cidade como um lugar sujo, perigoso e desagradável. Os figurinos de época são adequados e servem vêm à história. A direção de arte é belíssima, utilizando-se de muitos objetos e locações de época. A trilha sonora é normal e esquecível.
 
James McAvoy está bem no papel título do filme, se entregando à paranoia do personagem, misturada com obsessão, arrogância e hiperatividade. Embora este filme tenha poucas chances de ser lembrado por muito tempo, a interpretação de McAvoy chama a atenção. Daniel Radcliffe também está bem como Igor, sendo interessante as cenas em que o ator precisa se deslocar como corcunda, o que ele faz de maneira convincente. O ator consegue passar ao espectador sua sabedoria, inteligência e lealdade a Victor. Só o que compromete a caracterização do personagem é o cabelo que entrega que é uma peruca ou alongamento, criando um desconforto para quem assiste ao longa. Jessica Brown Findlay não tem muito o que fazer com sua personagem que só está na narrativa para ser o interesse amoroso de Igor, não sendo possível perceber se a sua apatia é defeito de atuação ou concepção da personagem. Andrew Scott parece ser o único que está levando o filme a sério demais, sempre sisudo e com cara de poucos amigos. O ator é boicotado pelo roteiro que faz o seu personagem ficar mais tempo pensando do que resolvendo os problemas. Freddie Fox interpreta de maneira debochada seu personagem que praticamente não possui função na história. A presença de Finnegan é tão desnecessária no longa que o espectador acaba criando má vontade de imediato com o personagem. 
Mais longo do que deveria ser e com um final muito clichê, Victor Frankenstein tem poucos personagens, e apenas dois são bem escritos e desenvolvidos, acusando um filme mal roteirizado. O espectador vai sair da sala de cinema razoavelmente satisfeito com o que assistiu, mas em cinco minutos vai esquecer completamente do filme.

Nota: 5,0
TRAILER

INFORMAÇÕES
Nota: 5,0
Titulo Original: Victor Frankenstein
Titulo Nacional: Victor Frankenstein
Direção: Paul McGuigan
Duração: 110 Minutos 
Ano de Lançamento: 2015
Lançamento nos EUA: 25/11/2015
Lançamento no Brasil: 26/11/2015

Elenco: James McAvoy, Daniel Radcliffe, Jessica Brown Findlay, Andrew Scott e Freddie Fox.



Derek Moraes

Cinéfilo de carteirinha. Nerd de plantão para preencher as mentes ávidas por informações e conhecimento. Especialista em transformar simples conversas em viagens a Hogwarts, Terra Média, Westeros e uma galáxia muito, muito distante.