Crítica – Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança

 

[CONTÉM SPOILERS]

 Sinopse: A Aliança Rebelde consegue roubar os planos da Estrela da Morte, a arma suprema do Império Galáctico. A Princesa Leia (Carrie Fisher), em uma situação de emergência, consegue enviá-los para o jedi refugiado Obi-Wan Kenobi (Alec Guinness) no planeta Tatooine, mas os planos acabam caindo nas mãos do fazendeiro Luke Skywalker (Mark Hamill). Para fazer com que os planos voltem para a Aliança Rebelde, Luke e Obi-Wan irão precisar da ajuda do contrabandista Han Solo (Harrison Ford), enquanto fogem da perseguição do principal soldado do Império Galáctico Darth Vader (James Earl Jones).

Há muitos filmes durante os mais de 100 anos de história do cinema que mudaram a sétima arte, seja por ser o primeiro filme produzido, o primeiro filme com som ou o primeiro filme com cores. Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança, ou apenas Star Wars quando foi lançado (para nós brasileiros Guerra nas Estrelas), foi o primeiro blockbuster lançado, juntamente com Tubarão (1975). Estes dois longas cunharam o termo blockbuster, que nada mais é do que um longa com grande orçamento, grande impacto na mídia e nos espectadores antes, durante e depois do seu lançamento, grande chamariz de público e com grandes expectativas de lucros. George Lucas levou a ideia da sua saga espacial para diversos estúdios de Hollywood, mas nenhum deles demonstrou interesse em levar às telas do cinema uma história cara em uma época em que a ficção científica ainda era vista como gênero não lucrativo. Quando apresentou seu projeto para a Twentieth Century Fox, Lucas ouviu uma resposta condicional: o estúdio adaptaria o primeiro filme, mas devido aos riscos financeiros envolvidos o diretor ganharia um salário menor do que a média da época. O diretor americano, sempre visionário, melhorou a proposta: dirigiria o filme de graça, desde que todos os direitos de licenciamento da marca Star Wars ficassem em sua posse. Em uma época em que o marketing em torno de um longa era inexistente, a Fox não viu nenhum problema no pedido de George Lucas. Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança estreou, arrastou multidões aos cinemas, criou uma legião de fãs e arrecadou dinheiro suficiente para ainda hoje, com a sua bilheteria da época ajustada pela inflação acumulada durante os anos, ser a terceira maior bilheteria da história do cinema com mais de 2,8 Bilhões de dólares, perdendo apenas para o campeão E o Vento Levou (1939) e o segundo colocado Avatar (2009). Lucas, vendendo os direitos de licenciamento da sua saga espacial para diversos seguimentos, como quadrinhos, video games e televisão, construiu uma fortuna que o torna o cineasta mais rico do mundo com bens avaliados em mais de 5,4 Bilhões de dólares.
George Lucas acerta em praticamente tudo neste filme. Escolhe um elenco de desconhecidos para personagens que irão marcar suas vidas, entrega uma narrativa coesa com começo, meio e fim, dosa os efeitos especiais, não exagera na ação e consegue criar um clima de diversão mesclada com uma sensação de urgência muito bem-vinda. Lucas antes só tinha dirigido dois longas de menor expressão e é incrível como o diretor consegue entregar um longa eficiente e memorável. Por mais que o diretor possua defeitos técnicos, como não saber dirigir atores limitados e sequências de relacionamentos amorosos, fica claro que o americano possuía domínio total do material que criou e queria mais do que ninguém que este primeiro longa desse certo. 
 
O que torna este primeiro filme de Star Wars perfeito e de fácil acessibilidade é a sua história e os seus personagens. A história do longa é simplista na concepção, mas possuindo camadas que poderiam ser exploradas em eventuais continuações. Além do clássico embate do bem contra o mal, há a jornada do homem comum que se vê no meio de acontecimentos importantes e entra em uma jornada de autoconhecimento que envolve o seu passado e o seu futuro. Lucas é inteligente ao criar os jedi e mais inteligente ainda ao conseguir estabelecê-los na cultura pop mesmo a classe estando em sua decadência quando os conhecemos. A mítica envolvendo os cavaleiros, sua ligação com a Força, seu altruísmo e a sua posição como antigos guardiões da paz e da justiça na galáxia é estabelecida de tal maneira que os espectadores compram a ideia de sua existência e importância conhecendo apenas um real cavaleiro jedi e um aprendiz. A disputa entre a opressão do Império Galáctico e a esperança de dias melhores trazida pela Aliança Rebelde estabelece o conflito principal da Trilogia Clássica, colocando ideologias antagônicas na disputa do poder na galáxia. Era importante que o espectador facilmente reconhecesse o porquê da Aliança Rebelde ser melhor do que o Império Galáctico, e o roteiro é feliz ao convencer o público logo no primeiro ato do longa: primeiro quando Darth Vader assassina um membro do Império apenas por discordar dele e quando a Estrela da Morte é colocada em funcionamento para aniquilar um planeta pacífico. Como George Lucas possuía muito do seu universo já criado através de sólidos conceitos, era necessário que o espectador percebesse que os acontecimentos do filme fossem consequências de importantes eventos passados. Então quando os jedi são citados ou a antiga República Galáctica poucas informações são dadas, mas o suficiente para que o público entenda que o universo que está sendo apresentado é muito maior do que parece de início e fique curioso por entender mais do que se passou antes.
Os personagens são bem escritos e tridimensionais, criando uma complexidade interessante e atraente para quem assiste ao longa. Luke é apenas um fazendeiro, mas sabe que está destinado a realizações maiores. Embora o amor por seus tios seja grande, o jedi sabe que seu futuro não é em Tatooine cuidando da fazenda. Ao mesmo tempo, Luke acha que é apenas mais um no universo, e que sua presença pouco muda a vida das pessoas. Leia possui boa vontade e dedicação à causa, não medindo esforços físicos e emocionais para a vitória da democracia. Han Solo só está interessado em tirar vantagem das situações, de preferência vantagens financeiras, mas quando lhe é dada a chance de lutar por algo maior e mais relevante para o destino da galáxia o personagem mostra que não é apenas o contrabandista que demonstra ser. Obi-Wan é o jedi que sabe que está chegando perto da morte e sabe que precisa cumprir uma última missão para deixar o futuro encaminhado. Darth Vader não mede esforços para defender a ideologia que acha correta, mas ao mesmo tempo sabe que todos estes novos acontecimentos possuem uma relevância e personagens mais importantes que o usual. É uma construção de personagens inspiradíssima de George Lucas, criando uma dinâmica e uma química principalmente entre o trio Luke, Leia e Han que funciona em toda Trilogia Clássica, estabelecendo alguns dos personagens mais importantes que o cinema já viu.
 
Como grande chamariz de público, George Lucas investiu em efeitos especiais vanguardistas para 1977. Utilizando efeitos especiais práticos, o diretor consegue entregar sequência maravilhosas, como a sequência inicial entre os soldados da Aliança Rebelde e os stormtroopers, tensa e claustrofóbica, passando pelo duelo entre Obi-Wan e Darth Vader e culminando na Batalha de Yavin em que a Aliança Rebelde lança uma ofensiva contra a Estrela da Morte. A direção de arte é criativa, construindo ambientes ricos e interessantes como a cantina de Mos Eisley e suas diversas espécies de alienígenas interagindo, os interiores da Millennium Falcon e da Estrela da Morte e as casas subterrâneas de Tatooine. A trilha sonora é talvez a mais marcante da história do cinema, sendo difícil alguém não reconhecê-la como sendo da saga Star Wars. John Williams, que já tinha feito um trabalho primoroso em Tubarão (1975), realiza aqui sua maior obra-prima, criando uma trilha sonora rica, impactante, esperançosa e épica. A fotografia é belíssima, com destaque para Tatooine que é retratada de maneira inóspita, selvagem, desagradável e vasta, criando a visualmente impactante cena do pôr-do-sol do planeta. 
Mark Hamill interpreta um Luke ingênuo, mas seguro do seu destino. O ator consegue passar um ar de inocência e deslumbramento pelo que está acontecendo ao seu entorno que facilita a conexão com o espectador, que está sentindo as mesmas sensações. Hamill é competente ao conseguir construir um personagem que, embora novo, possui habilidades desenvolvidas e potencial para muito mais. Carrie Fischer coloca dinamismo, força de vontade e tenacidade à Princesa Leia, criando uma personagem feminina forte e que não precisa da ajuda dos homens para ficar viva, colocando esta personagem juntamente com a Ripley de Alien (1979) como ícones femininos das décadas de 70 e 80. Harrison Ford entrega o personagem mais carismática de toda a Trilogia Clássica, o bandido que só está atrás de dinheiro, mas que possuiu uma essência boa. O ator coloca todo o seu charme no personagem, além do seu voluntarismo para as sequências de ação. Alec Guinness, o único ator famoso à época no elenco, interpreta um Obi-Wan sábio e esperançoso, embora seus anos de exílio e sofrimento sejam transmitidos através de diálogos. Quando finalmente podemos ver o jedi em ação, a luta é mal coreografada, mas ao menos podemos ver o personagem mostrar um pouco das suas habilidades. James Earl Jones fornece aquilo que de mais marcante o Darth Vader possui: sua voz. Embora toda a concepção do personagem seja soberba (nada mais maligno do que um vilão vestindo uma armadura preta), a voz e a respiração do personagem possuem tamanha presença que pouca gente sabe o nome da pessoa que de fato vestia e filmava com o traje de Darth Vader, o ator David Prowse.
Contando ainda com personagens coadjuvantes absurdamente carismáticos e relevantes como o astrodróide R2-D2, o robô protocolar C-3PO e o wookie Chewbacca, este primeiro Star Wars sempre figura entre os filmes que devem ser assistidos. Um filme com tantas qualidades, relevante para a história da sétima arte e tão influente para a cultura pop precisa ser apreciado tanto por fãs da saga quanto por aqueles que apenas querem assistir a um bom filme.

NOTA: 9,0


INFORMAÇÕES
Título: Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança (Star Wars: Episode IV – A New Hope)
Direção: George Lucas
Duração: 121 Minutos 
Lançamento: 18/11/1977
Elenco: Mark Hamill, Carrie Fisher, Harrison Ford, James Earl Jones e Alec Guinness.



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Derek Moraes

Cinéfilo de carteirinha. Nerd de plantão para preencher as mentes ávidas por informações e conhecimento. Especialista em transformar simples conversas em viagens a Hogwarts, Terra Média, Westeros e uma galáxia muito, muito distante.