Crítica – Spotlight: Segredos Revelados

[SEM SPOILERS]

Sinopse: Em 2001, o jornal The Boston Globe contrata um novo editor-chefe Marty Baron (Liev Schreiber) que se interessa por uma matéria publicada discretamente no próprio jornal e que trata dos casos de pedofilia cometidos pela igreja católica na cidade de Boston. Baron imediatamente coloca a equipe da seção Spotlight para aprofundar o caso, fazendo com que o editor da coluna Walter Robinson (Michael Keaton) e seus jornalistas investigativos Michael Rezendes (Mark Ruffalo), Sacha Pfeiffer (Rachael McAdams) e Matt Carroll (Brian d’Arcy James) se envolvam em anos de casos de pedofilia negligenciados, sendo todos supervisionados por Ben Bradlee Jr. (John Slattery). Paralelamente, o advogado de defesa Mitchell Garabedian (Stanley Tucci) representa um grupo de vítimas que sofreram pedofilia e finalmente reúnem coragem para processar a igreja católica.


A história dos quatro jornalistas que relevaram ao mundo casos de pedofilia cometidos por membros da igreja católica durante décadas na cidade de Boston e os esquemas que a própria igreja católica realizou com o objetivo de esconder estes abusos merecia ser retratada com eficiência e qualidade nos cinemas. É uma história relevante, que teve repercussão e consequências mundiais, fazendo com que casos do tipo fossem revelados em diversos países. Pela reportagem, a equipe ganhou o prêmio máximo do jornalismo, o Prêmio Pulitzer, na categoria Serviços Públicos. O que o diretor Tom McCarthy e sua equipe conseguem é um filme irretocável, sincero, honesto e objetivo, entregando um material de qualidade cinematográfica incrível e de uma relevância história inigualável.


O americano Adam McCarthy tem no seu currículo um único filme famoso, mas na função de roteirista: Up – Altas Aventuras (2009). Na função de diretor apenas filmes independentes e premiados como O Agente da Estação (2003) e O Visitante (2007) e a bomba Trocando os Pés (2014). Por sorte o diretor consegue apagar a péssima impressão deixada com seu último filme ao entregar este Spotlight – Segredos Revelados. O diretor sabe com que material está trabalhando e a importância do mesmo e suas escolhas são acertadas. E a principal delas é focar a história nos jornalistas da seção Spotlight e nas suas buscas por informações e pessoas que acrescentem ao material que está sendo produzido. Os dramas pessoais de cada um são esquecidos e, embora saibamos que alguns deles são casados, nenhum familiar é mostrado. A excessão fica por conta da personagem de Rachel McAdams, mas mesmo a inclusão do seu marido e da sua avó na história tem um motivo e um porquê. Nada mais importa na narrativa do que a história que está sendo investigada. 

O longa é feliz ao retratar a dedicação dos jornalistas para com sua profissão, em uma das melhores retratações do tipo da história do cinema. Todas as etapas do processo do jornalismo investigativo são mostradas em detalhes, desde a obtenção de fotos e recortes antigos que ficam nos arquivos do jornal até a entrevista com vítimas, passando por reuniões e sessões no tribunal. É um olhar que reverencia a profissão e suas dificuldades, sem deixar de enaltecer as conquistas quando o trabalho final é finalmente impresso. A dinâmica entre os personagens é orgânica e, mesmo que sejam independentes em suas investigações, é a junção das peças de cada um que forma o quebra-cabeça geral. Os jornalistas são retratados sempre com pressa, indagadores, sem rotina, desconfiados e resolutos em suas determinações. Conforme as investigações levam a números cada vez maiores de possíveis padres pedófilos em Boston, a descrença dos jornalistas na instituição igreja católica e a surpresa que demonstram com os números impressionantes da pedofilia são palpáveis para o espectador, que fica imaginando como reagiria ao saber da abrangência da situação.

 

A vulnerabilidade das vítimas da pedofilia é um dos pontos mais tocantes do filme. Muitos tinham no padre da paróquia local uma pessoa de confiança, um elo entre Deus e a humanidade e o desgosto que as vítimas revelam é algo perturbador, embora justificável. Quando algumas são confrontadas com a verdade, que guardaram durante décadas, a reação mais comum é chorar, já que anos de um sofrimento reprimido está sendo liberado. Embora algumas situações de pedofilia seja detalhadas, nada é banalizado ou mesmo vulgar, respeitando as reais vítimas do ocorrido e reforçando que o mais importante é o que aconteceu e quem realizou o ato, não os detalhes. Ao mesmo tempo, a hipocrisia de certas pessoas chega a ser absurda, já que fazem de tudo para encobrir os casos de pedofilia ou para o benefício próprio ou para manter o nome e a reputação de um colégio regido pela igreja católica, por exemplo. São situações que vão sendo descobertas com o decorrer da narrativa que surpreendem o espectador, que se sente cada vez mais descrente das instituições em geral.

Um erro que o filme quase comete é de apontar um vilão na história. Embora a igreja católica seja a vilã da história por encobrir os fatos e não punir os responsáveis, eu pensei que poderiam colocar essa representatividade em uma pessoa em específico. Não alguém da própria igreja, mas uma outra pessoa que tivesse encoberto os fatos durante anos e evitado que as informações fossem divulgadas. E isto ocorre em determinado momento em que ficamos sabendo que muitos anos antes informações sobre a pedofilia na igreja católica já haviam sido enviadas para o The Boston Globe, porém nada foi feito com elas. Em filmes que preferem manipular as emoções do espectador, algum editor veterano levaria a culpa e seria a retratação do vilão, por não ter dado continuidade às investigações. Mas em Spotlight – Segredos Revelados a conclusão desta situação se dá com um simples diálogo: ‘Somos humanos e erramos. Erramos em não dar mais atenção às informações naquela época.’

A fotografia do longa é competente, retratando Boston de maneira eficiente e valorizando a grandiosidade da cidade. A direção de arte é acertada, retratando o caótico escritório da seção Spotlight, com seu amontoado de papéis, além de conseguir fazer com que o espectador perceba a personalidade de certos personagens apenas pela decoração de suas residências, como o apartamento pobremente mobiliado e organizado de Michael Rezendes, deixando a entender que o personagem é focado demais no seu trabalho para se preocupar com o próprio lar. A trilha sonora é marcante, com um ritmo cadenciado que sempre é perceptível quando os persongens estão investigando ou algo importante está para ser revelado. A montagem é soberba, dando espaço para que o espectador absorva as novidades das investigações a partir de momentos mais intimistas dos personagens, criando pausas bem-vindas que fornecem um rimo mais agradável ao longa. 

Michael Keaton está ótimo como o editor responsável pela seção Spotlight. A ator consegue dar um ar de respeito que o personagem precisa e consegue balancear entusiasmo com responsabilidade de maneira eficiente, se mostrando sempre pensativo e reflexivo, com pouca impulsividade. Mark Ruffalo está perfeito como Michael Rezendes, interpretando um personagem visceral, dedicado, resoluto e totalmente impulsivo. É interessante notar como o ator compôs o personagem, interpretando sempre de cabeça baixa, incialmente com certa insegurança e com um sotaque curioso, que depois vamos saber que se trata de sua descendência portuguesa. O ator merece a indicação ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, principalmente pela dedicação perceptível que teve para com o personagem real que estava interpretando. Rachael McAdams também é outro pilar de sustentação do elenco, com uma interpretação dedicada, enérgica e complacente. A atriz consegue colocar certa doçura na personagem importante, para diferenciá-la dos demais jornalistas. E os momentos de reflexão da personagem em relação à sua avó e a igreja católica são interessantes por deixar claro o conflito pela qual a personagem está passando, colocando as obrigações profissionais e as obrigações familiares em atrito. A atriz também merece a indicação de Melhor Atriz Coadjuvante, principalmente por mostrar a evolução de Rachel como atriz, já que seu potencial era constantemente desperdiçado em comédias românticas medianas. Brian d’Arcy James interpreta o personagem menos desenvolvido da equipe da Spotlight, porém, assim mesmo, o roteiro faz com que o espectador se importe com o personagem principalmente pela preocupação que o mesmo possui em relação a uma casa vizinha que serve de reformatório para padres pedófilos. Liev Schreiber está discreto, mas eficiente, como o novo editor-chefe do The Boston Globe. O personagem ganha importância no primeiro e no terceiro ato, sumindo durante o segundo. É um personagem pequeno e mais desencadeador de ações do que um realizador das mesmas, mas o ator consegue cumprir sua função sem comprometer. John Slattery interpreta talvez o único personagem sem função na história, que está lá mais para representar alguém importante que existe de verdade e para dar algumas diretrizes gerais que a Spotlight deve seguir. De qualquer maneira, o ator faz bem o pouco que tem para fazer. Stanley Tucci interpreta um de seus personagens mais discretos, conseguindo dar peso a um advogado que sabe que terá a difícil missão de enfrentar a influência e o poder da igreja católica. O ator entrega uma interpretação contida, mas eficiente e objetiva, mostrando o grande profissional que Stanley é, o que às vezes passa despercebido em alguns de seus excêntricos personagens. 

Entrando como um dos favoritos ao Oscar de Melhor Filme, Spotlight – Segredos Revelados é um filme completo que entrega uma trama interessante não pelo seu final, que é de conhecimento público, mas pela sua construção de maneira crescente e por utilizar excelentes atores em papéis importantes. Possui um ritmo agradável e agrada a todos aqueles que apreciam um ótimo filme bem realizado.

NOTA: 10,0

 

 


INFORMAÇÕES

Título: Spotlight – Segredos Revelados (Spotlight)
Direção: Tom McCarthy
Duração: 129 Minutos 
Lançamento: Janeiro de 2016 

Elenco: Michael Keaton, Mark Ruffalo, Rachael McAdams, Brian d’Arcy James, Liev Schreiber, Stanley Tucci e John Slattery.



Compartilhe este post:

Derek Moraes

Cinéfilo de carteirinha. Nerd de plantão para preencher as mentes ávidas por informações e conhecimento. Especialista em transformar simples conversas em viagens a Hogwarts, Terra Média, Westeros e uma galáxia muito, muito distante.