Crítica – Perdido em Marte

[SEM SPOILER]

Sinopse: Quando a missão de exploração de Marte Ares III, composta pela capitã Melissa Lewis (Jessica Chastain) e pelos astronautas Mark Watney (Matt Damon), Rick Martinez (Michael Peña), Beth Johanssen (Kate Mara), Chris Beck (Sebastian Stan) e Alex Vogel (Aksel Hennie), é atingida por uma tempestade, a decisão tomada pela capitã é abandonar o solo marciano e voltar à Terra. Um acidente acaba fazendo com que o astronauta Mark Watney se separe do grupo e seja dado como morto. Dias depois, a NASA, dirigida por Teddy Sanders (Jeff Daniels), descobre que Watney está vivo e tentando sobreviver com o que sobrou dos equipamentos da missão. Resta agora à agência espacial americana lutar contra o tempo para desenvolver um plano de resgate do astronauta, através dos diretores de missões Vincent Kapoor (Chiwetel Ejiofor) e Mitch Henderson (Sean Bean), enquanto a responsável pelas relações públicas da NASA Annie Montrose (Kristen Wiig) tenta gerenciar a maior crise da agência desde o desastre/ sucesso da missão Apolo 13.


Marte é um dos temas mais perigosos para se trabalhar em Hollywood. Nenhum longa sobre o planeta vermelho jamais conseguiu ser um sucesso de público e crítica, sendo tratado como um assunto tabu nos grandes estúdios. Para exemplificar, temos dois longas recentes da Disney: John Carter – Entre Dois Mundos (2012) que custou US$ 264,0 Milhões e rendeu mundialmente US$ 284,0 Milhões e Marte Precisa de Mães (2011), que pouca gente conhece porque foi lançado direto para DVD e Blu-Ray em praticamente todos os países devido ao fracasso de bilheteria nos EUA, custando US$ 150,0 Milhões e faturando irrisórios US$ 39,0 Milhões nos territórios em que foi lançado em circuito comercial. Embora Marte esteja no consciente coletivo por ser o próximo planeta depois da Terra, por ser alvo de inúmeras pesquisas científicas e destino de futuras missões espaciais tripuladas, por algum motivo o público nunca reagiu bem aos longas que têm o planeta como cenário principal. Para tentar quebrar essa sina, um dos diretores mais consagrados de Hollywood decidiu adaptar o livro de Andy Weir, Perdido em Marte (2011), para o cinema utilizando um elenco absolutamente estelar e eficiente. O resultado é um retumbante sucesso.

Ridley Scott é um diretor absolutamente consagrado, que dirigiu obras-primas como Alien – O Oitavo Passageiro (1979) e Blade Runner – O Caçador de Androides (1982). Em outras palavras é um diretor que não precisa provar nada a ninguém. E é corajoso que o diretor, aos 77 anos, assuma a responsabilidade de se aventurar em um tema controverso dentro de Hollywood. E neste Perdido em Marte, Scott realiza o seu melhor trabalho desde o ótimo O Gângster (2007). O diretor consegue imprimir um energia a este novo longa digna de nota. Em nenhum momento o espectador se sente cansado em acompanhar os esforços de Mark Watney para sobreviver em Marte e os desafios da equipe da NASA em desenvolver um plano de resgaste em tempo recorde. Quem assiste ao filme se sente imerso naquela realidade e torce com todas as forças para que tudo termine bem para o astronauta perdido. O espectador se envolve emocionalmente com o personagem, rindo quando algo dá certo e se frustrando quando algum problema acontece. A transição entre as sequências que se passam na Terra, em Marte e no espaço, através da tripulação da Ares III, às vezes não é bem conduzida, já que em alguns momentos um dos três núcleos da trama fica esquecido durante um tempo considerável enquanto outros núcleos são desenvolvidos. Não é um fator que atrapalhe o resultado final, mas é algo que incomoda pela urgência que a história transmite.

Tecnicamente o longa é arrebatador. Marte é mostrado na totalidade da sua vastidão e desolação, aumentado a sensação de desespero que o espectador sente junto com astronauta perdido. Para simular o planeta vermelho foi escolhido o Vale de Wadi Rum, na Jordânia, onde aconteceram as filmagens. A fotografia do longa é lindíssima, mostrando paisagens desérticas, quase sempre cobertas por tempestades de areia vermelha. Os efeitos especiais são competentes, principalmente ao deixar o Vale de Wadi Rum com “cara” de Marte e nas sequências que se passam no espaço tendo como foco a gigantesca nave Ares III.

A história do longa é simples na sua concepção, mas complexa no seu desenvolvimento. Conforme a projeção avança e mais personagens vão surgindo e variantes dos problemas também, percebe-se que resgatar o astronauta em Marte exige que inúmeras variáveis sejam resolvidas. E esse é um dos grandes méritos do filme: mostrar a complexidade sem precedentes que uma missão de resgate em Marte envolve, levando-se em conta fatores financeiros, diplomáticos, estruturais e, principalmente, humanos. Há problemas de tom no filme que incomodam o espectador. Em uma história em que o foco principal é o drama de um ser humano sozinho em Marte com comida racionada e tecnologia limitada, o humor precisa ser dosado para não tirar o peso do problema. Aqui o longa erra feio ao incluir humor em sequências essenciais. Enquanto o humor de Mark Watney é um mecanismo de defesa do inconsciente para evitar a insanidade, nos personagens da Terra é algo descartável e desnecessário que quebra o ritmo do longa. As “mensagens telegrafadas” são outro problema. Quando um personagem fala em determinado momento do filme “Temos uma janela curta entre a chegada do resgate para Mark Watney e o término dos suprimentos que ele ainda tem. Isso se não acontecer nenhum problema.” Já dá para imaginar o que acontece na cena seguinte. Esse mecanismo de roteiro é péssimo e é utilizado pelo menos três vezes durante a projeção, já mostrando o que vai acontecer antes mesmo de acontecer. E a inclusão da agência espacial chinesa na história é forçada e totalmente desnecessária, só servindo para atrair público chinês para assistir ao longa.

O elenco estelar é competente e não decepciona na sua maioria, mesmo tendo personagens em excesso. Matt Damon está perfeito como Mark Watney. O ator carrega boa parte da projeção sozinho, mas seu carisma é mais do que suficiente para prender a atenção do espectador. Os conhecimentos do seu personagem em botânica, geologia, química, física, mecânica e astronomia nunca surge implausível, o que também é mérito do ator que mostra que sabe o que está fazendo em cena. O fato do roteiro não se aprofundar nos problemas psicológicos que o personagem desenvolve durante a narrativa é uma falha, já que é impossível que uma pessoa que fique sozinha e isolada do contato humano, em condições extremas, não desenvolva nenhum distúrbio psicológico. O espectador tem dificuldade em comprar a ideia do personagem ter emagrecido, já que fica claro que quando é mostrado o corpo magro não se trata do ator. Jessica Chastain está ótima como a capitã que tomou a decisão de abandonar o suposto morto Mark Watney. A dor que a personagem sente ao saber que o companheiro está vivo é algo palpável, e o espectador sente o sofrimento junto com a personagem. Kate Mara e Michael Peña estão bem como outros dois astronautas da Ares III, suas perícias técnicas são exploradas e os atores não desapontam. Sebastian Stan e Aksel Hennie estão apagados no longa, fazendo apenas volume para a tripulação, sem acrescentar em nada. No núcleo da Terra, Jeff Daniels está bem como o chefão da NASA. Embora seu personagem tenha a única função de dar ordens e cobrar prazos cada vez menores para sua equipe, o ator tem presença e impõe o respeito necessário que o personagem necessita. Sean Bean e Chiwetel Ejiofor estão eficientes como dois diretores de missão da NASA, mas seus personagens poderiam muito bem terem sido fundidos em um só, já que praticamente possuem a mesma função na trama: gerenciar equipes para trazer Mark Watney de volta à Terra vivo. Já a personagem de Kristen Wiig poderia ter sido excluída do roteiro, não acrescentando em nada na história e possuindo apenas meia dúzia de diálogos.

Com um terceiro ator dos melhores, tensos e empolgantes dos últimos tempos, Perdido em Marte tem tudo para fazer o sucesso que um filme sobre o planeta vermelho necessita. Tem ótimo elenco, história competente e é tecnicamente irrepreensível. O espectador não desgruda da cadeira durante toda a projeção e torce para que Mark Watney retorne vivo para a Terra. Um filme com esta energia contagiante de superação humana com certeza merece ser assistido.

Nota: 8,0

TRAILER


INFORMAÇÕES

Nota: 8,0
Titulo Original: The Martian
Titulo Nacional: Perdido em Marte
Direção: Ridley Scott
Duração: 141 Minutos 
Ano de Lançamento: 2015
Lançamento nos EUA: 02/10/2015
Lançamento no Brasil: 01/10/2015

Elenco: Matt Damon, Jessica Chastain, Kate Mara, Michael Peña, Sebastian Stan, Aksel Hennie, Jeff Daniels, Kristen Wiig, Sean Bean, Chiwetel Ejiofor.



Derek Moraes

Cinéfilo de carteirinha. Nerd de plantão para preencher as mentes ávidas por informações e conhecimento. Especialista em transformar simples conversas em viagens a Hogwarts, Terra Média, Westeros e uma galáxia muito, muito distante.