Crítica – O Regresso

[SEM SPOILERS]

Sinopse: No início do século XIX, uma expedição comandada pelo exército americano entra em terras indígenas com o objetivo de caçar animais e obter suas peles. O capitão Andrew Henry (Domhnall Gleeson) comanda a expedição que é guiada por Hugh Glass (Leonardo DiCaprio), que viveu com os nativos americanos durante anos e conhece o lugar como poucos. Uma série de eventos acaba deixando Glass à beira da morte, ocasionando a divisão da expedição onde seu filho Hawk (Forrest Goodluck) junto com John Fitzgerald (Tom Hardy) e Jim Bridger (Will Poulter) precisam mantê-lo vivo enquanto tentam chegar no forte americano mais próximo. 

 

Um longa que junta um dos diretores mais talentosos em atividade com um dos atores mais consagrados dos nossos tempos chama a atenção do público e da crítica. Se nessa receita houver a possibilidade deste ator, que injustamente nunca ganhou o maior prêmio do cinema mundial, ser finalmente premiado, a expectativa aumenta. E se o filme tiver como embrulho qualidades técnicas excepcionais que saltam aos olhos, é certeza de sucesso. Essa é a receita deste O Regresso, um longa com uma ideia simplista, praticamente focando na jornada de um homem só contra a natureza, estrelado por Leonardo DiCaprio, que nunca ganhou o Oscar de Melhor Ator, e dirigido pelo atual ganhador do Oscar de Melhor Filme e Melhor Diretor. A expectativa gerada, incomum para um longa que não é um blockbuster e nem foi feito para tal, foi tanta que todos querem ver o ‘filme do DiCaprio em que ele luta contra o urso’. E o resultado final é um filme que beira a perfeição, na verdade namora com ela durante toda a sua projeção, mas, mesmo que não a atinja, tem tantas qualidades que assistí-lo se torna obrigação.

O mexicano Alejandro Gonzáles Iñárritu forma a trindade dos diretores mexicanos que fazem sucesso comercial e crítico em Hollywood atualmente, somando-se a ele Alfonso Cuarón e Guillermo Del Toro. Iñárritu chama a atenção desde 2003 quando dirigiu 21 Gramas, mas foi no ano passo que ele se consagrou. O seu longa Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) (2014) chamou a atenção por ser um filme apresentado praticamente em apenas um plano sequência (sem cortes) e contar com atuações espetaculares de atores que praticamente estavam se representando como Michael Keaton e Edward Norton. O resultado foi quatro Oscars ganhos na cerimônia de 2015, os principais sendo o de Melhor Filme e o de Melhor Diretor. Iñárritu tem um conhecimento técnico do que é cinema que impressiona. O diretor sabe como comandar os diversos aspectos da sétima arte em função de um filme bem realizado. Somando-se a isso, a direção de atores de Iñárritu é primorosa, conseguindo ótimas atuações de ótimos atores. Um diretor completo que impressiona a cada novo trabalho. Em O Regresso o diretor continua apostando em planos longos, com poucos cortes, destacando-se a batalha inicial entre o exército americano acuado e os indígenas, o confronto entre Glass e o urso e o duelo final. São sequências muito bem filmadas, enérgicas e necessariamente bem coreografadas, já que, por não possuir cortes, qualquer erro na filmagem impossibilita os planos sequências. Os aspectos técnicos, que serão discutidos mais abaixo, são um dos pontos altos do filme, fazendo com que tudo trabalhe em prol da narrativa, para deixá-la ainda mais impactante e a situação de Glass mais desesperadora. Iñárritu trabalha de modo a exaltar tanto a força de vontade de Glass quanto as dificuldades que o personagem enfrenta. Quando o diretor mostra um plano aberto das terras indígenas, vastas e cobertas de gelo, a intenção dele é, além de presentear o espectador com cenários lindíssimos, mostrar o quão desolado é o local e o tamanho das dificuldades que Glass irá enfrentar para, simplesmente, ficar vivo. 


A história de O Regresso é simplória ao extremo. Se trata de uma jornada de vingança onde um homem precisa sobreviver às mais diversas condições em um território inóspito para atingir seu objetivo. E é justamente a força de vontade de Glass e sua determinação em seguir em frente que capta a atenção do espectador. Praticamente 60% do tempo de projeção é gasto nos esforços do personagem em se manter vivo e seguir em frente. E poucas vezes o cinema viu um personagem sofrer tanto como Glass sofre. Desde o ataque do urso, passando pela sua dificuldade em caminhar e se alimentar, por uma cauterização no melhor estilo Rambo e terminando no abrigo dentro de um animal morto, a jornada do personagem cria um dos elos entre espectador e personagem mais intensos dos últimos tempos. O espectador torce, com todas as suas forças, para que Glass consiga ficar vivo e cumprir sua vingança. Desde já Hugh Glass entra para a prateleira dos personagens que lutam contra tudo e todos para se manter vivo, realizando a jornada do homem sozinho, ao lado de Chuck Noland em O Náufrago (2000) e Mark Watney em Perdido em Marte (2015). Os outros 40% da narrativa são gastos com a tribo indígena que povoa aquele território e o exército americano abrigado no Fort Kiowa esperando reforços. São duas histórias que empalidecem se comparadas com a principal, mas que são necessárias para estabelecer as bases para o terceiro ato do filme, que depende de mais personagens e situações para se concretizar.


O longa peca apenas em seu roteiro que é preguiçoso em alguns aspectos. Toda a subtrama envolvendo a busca pela filha do chefe da tribo é descartável, só servindo para justificar uma decisão que é tomada quase na última sequência do filme, mas que poderia ser descartada com uma simples mexida no roteiro. Os próprios nativos são esquecidos na virada do segundo para o terceiro ato, só aparecendo na já citada conveniente sequência final. Há conveniências demais no roteiro que acabam diminuindo a surpresa ou o impacto que o espectador sofreria em determinados momentos. Quando determinado personagem deixa cair, na sua fuga, um cantil de água, logo sabemos que o objeto será importante em algum futuro próximo. Quando dois personagens se dividem para buscarem um terceiro, fica evidente que o destino de um destes dois será a morte. Mas o pior erro do roteiro é privar o espectador da catarse final e só recomendo que você leia o resto deste parágrafo se você já assistiu ao filme. O longa consegue criar uma sequência final anticlimática em que o espectador, que se envolveu emocionalmente com a história e os personagens durante quase duas horas e meia, se vê privado de sua catarse quando Hugh Glass decide não matar John Fitzgerald, deixando o destino do personagem para outras mãos. É uma decisão que frustra o espectador e depõe contra tudo o que Glass sofreu e teve que passar para chegar até lá com apenas um objetivo em mente: a sua vingança. 


A fotografia do longa é belíssima e é o primeiro aspecto técnico que encanta o espectador. Mostrando locais extensos, com pouca vegetação e muita neve, cortados por rios, alguns congelados e outros não, tudo muito carregado nas cores branca, preta, cinza e verde, o filme encanta cada vez que suas paisagens são mostradas. Um detalhe é que Iñárritu se recusou a utilizar computação gráfica para compor as paisagens, se utilizando, assim, de locações na Argentina, Estados Unidos e Canadá. Os efeitos visuais são caprichados e saltam aos olhos principalmente quando o urso confronta Glass. Em nenhum momento em que o animal está na tela o espectador tem a impressão de estar vendo um fruto dos efeitos visuais. A mesma qualidade não se aplica à manada de búfalos que aparece rapidamente em determinada sequência, já que os animais soam artificiais, o que justifica ainda mais a utilização apenas de planos abertos para esta sequência, dificultando a visualização dos defeitos dos animais animados. A trilha sonora é intensa e bem trabalhada, praticamente aumentando a tensão da narrativa a níveis absurdos e deixando o espectador tenso e desconfortável durante toda a projeção. A montagem é eficiente, garantindo o dinamismo necessário mesmo quando Glass está sozinho em cena, e intercalando, sempre que possível, os outros núcleos da história com a do personagem principal, nunca deixando o espectador enfadado ou cansado. Aliás, o maior mérito da montagem é gerar tal dinamismo ao filme que o espectador não sente as mais de duas horas e meia de projeção.


A eterna rivalidade entre os colonizadores americanos e os nativos é pincelada na história, não chamando muita atenção, mas servindo como pano de fundo para os acontecimentos. É interessante notar a relação entre os nativos e os franceses que estavam era mesmo querendo ver o circo pegar fogo para se aproveitarem do caos gerado para se darem bem de alguma maneira. Alguns momentos são bem trabalhados, como aquele em que John Fitzgerald conta como ganhou o seu quase escalpe. Outra sequência interessante, e belíssima visualmente por se passar em uma intensa nevasca, é aquela em que outro indígena ajuda Glass através da construção de um abrigo e da utilização de técnicas de cura diferentes, tudo isso para exaltar ainda mais o conhecimento dos nativos sobre aquele mundo.


O trabalho de Leonardo DiCaprio neste longa é digno do Oscar de Melhor Ator. E isso já fica evidente na sua primeira sequência de sofrimento, onde o urso ataca o seu personagem sem piedade. Ao fim desta sequência eu já estava pensado ‘OK, podem dar o Oscar para ela já!’. E isto só é possível pela entrega que o ator dá no personagem. Neste O Regresso, DiCaprio se despe de qualquer vaidade e frescuras e entrega uma interpretação visceral, praticamente animalesca em algumas momentos. Mesmo que possua poucos diálogos, é no olhar e na entrega física onde o ator deposita toda a sua interpretação, a ponto do espectador conseguir entender o quanto o personagem está sofrendo apenas pela expressão deste. Embora já tenha merecido o prêmio em outras oportunidades, como em O Lobo de Wall Street (2013), parece que desta vez o Oscar é dele. Tom Hardy faz o vilão do longa, o qual o espectador já desconfia desde o primeiro segundo de projeção. Mesmo com sua dicção de difícil compreensão, sempre parecendo que o personagem está falando para dentro, Hardy coloca vigor físico em um personagem com um passado sofrível (seu quase escalpe é a prova), mas que está interessado apenas no lucro, sem medir esforços para tal. A composição do personagem feita por Hardy o coloca em pé de igualdade com Glass. Domhnall Gleeson prova que 2015 foi o seu ano ao interpretar um capitão honrado e resoluto, entregando um personagem que, pelas suas atitudes, ganha o rápido carinho do público. A bondade junto com o senso de justiça que o ator consegue colocar no personagem é paupável. Will Poulter entrega o seu primeiro personagem suportável da carreira, felizmente contradizendo aqueles que diziam que o ator era limitado. Poulter mostra que tem talento, sendo necessário apenas os papeis certos para que ele se encaixe e se encontre, e a ajuda de um bom diretor de atores. Forrest Goodluck é uma grata surpresa do longa, mesmo que aparecendo pouco tempo. O ator mostra carisma e presença de tela, ganhando a simpatia do espectador. A impulsividade do personagem é o que sela o seu destino, e o ator consegue trabalhar isso muito bem. Fica a torcida para que Forrest Goodluck não fique restrito à personagens indígenas como Adam Beach ficou.


O Regresso impressiona pelo seu primor técnico e pelo seu roteiro enxuto e objetivo, praticamente sem gordura ou tempo perdido. Embora seja nítido o esforço de Alejandro Gonzáles Iñárritu em criar um épico perfeito centrado em um homem só, o diretor não atinge este objetivo. Mas as qualidades do longa são tantas e tão evidentes que toda a atenção gerada pela sua estreia é justificada e recompensada de ponta a ponta da projeção.

NOTA: 9,0

 

INFORMAÇÕES

Título:O Regresso (The Revenant)
Direção: Alejandro Gonzáles Iñárritu
Duração: 156 Minutos 
Lançamento: Fevereiro de 2015
Elenco: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhnall Gleeson, Will Poulter e Forrest Goodluck. 

Derek Moraes

Cinéfilo de carteirinha. Nerd de plantão para preencher as mentes ávidas por informações e conhecimento. Especialista em transformar simples conversas em viagens a Hogwarts, Terra Média, Westeros e uma galáxia muito, muito distante.