Crítica – O Quarto de Jack

[SEM SPOILERS]

Sinopse: Morando em um quarto que acredita ser tudo o que há no mundo, Jack (Jacob Tremblay) passa os dias com sua mãe Joy (Brie Larson) e, todas as noites, recebem a visita de Nick (Sean Bridgers). Na verdade Joy e Jack são reféns de Nick, e a mãe faz de tudo para que o filho não encare a dura realidade na qual se encontram, para desespero de Nancy (Joan Allen) e Robert (William H. Marcy), que há sete anos procuram por sua filha desaparecida. 













O diretor irlandês Lenny Abrahamson possui um currículo de apenas cinco filmes em doze anos,  todos eles pequenos, de orçamento restrito e alguns com ótima recepção da crítica. O que faz este O Quarto de Jack sair do anonimato e estar disputando o Oscar em quatro categorias é a dupla de protagonistas e a intensidade da história contada, que é capaz de desestruturar emocionalmente até o espectador mais resoluto. Contar uma história minimalista, em que metade da narrativa se passa em um mesmo ambiente e com apenas dois personagens interagindo, praticamente, exige talento para não deixar o espectador cansado. Lenny consegue captar a atenção do público, que se vê imerso naquela realidade em que Joy e Jack se encontram, sem nem conseguir respirar em alguns momentos. A tensão e o clima de claustrofobia quase paupável da história faz com que a primeira metade da projeção passe voando, tamanha é a entrega emocional de quem assiste ao longa.

A apresentação dos personagens e situações segue a estrutura convencional. Primeiro vemos a dupla de reféns passando um dia comum no quarto, sendo fácil perceber que a dinâmica entre os dois é de muito carinho, respeito e organização. A rotina do quarto é facilmente percebida pelo espectador, sendo possível concluir que toda aquela sistemática é algo que existe há anos no ambiente. Depois acompanhamos um segundo dia no quarto, em que acontece um problema e, no fim, temos a reviravolta que culmina em uma catarse na metade do longa. Tudo é muito bem mostrado, se não em diálogos, mas através de imagens. Os esforços de Joy para manter a própria sanidade mental e, ao mesmo tempo, cuidar do filho de maneira que ele não perceba a situação em que se encontra é algo que remete à A Vida É Bela (1997), com a diferença que Jack nunca soube o que é o mundo além das paredes do seu quarto. A própria interação da criança com o ambiente é algo que mostra muito da personalidade do personagem, que possui uma relação de carinho e cuidado com objetos inanimados, como a pia ou mesmo a sua velha colher torta. Ainda mais interessante, e chocante para quem assiste, é a imagem distorcida que o garoto tem da realidade, achando que o mundo se resume ao seu quarto, mostrando o sacrifício que Joy teve que executar afim de proteger o filho.


Quando a dupla está fora do quarto é ainda mais chocante perceber como Joy, e o público também, achou que a readaptação ao mundo seria fácil depois de sete anos de sequestro. E o roteiro funciona ao proporcionar a catarse no meio da narrativa, dando a sensação ao espectador que o pior já passou. Mesmo que o pior já tenha passado, o que está por vir ainda é muito desafiador. Como colocar sua vida em ordem depois de sete anos sem contato com a humanidade? Como fazer uma criança, que nunca teve contato com o mundo real, se adaptar a uma realidade que dias antes julgava não existir? Em resumo: como fazer mãe e filho terem uma vida normal? Este desafio se mostra muito mais difícil do que escapar do cativeiro, já que há outros inúmeros fatores envolvidos, como família, tempo e mágoas. Mas trás felicidade ao espectador cada passo que Jack dá na direção de se socializar e se adaptar ao mundo, mesmo que sejam passos lentos e incialmente inseguros. Ao mesmo tempo, perceber como Joy mergulha em uma depressão choca por contrapor uma mulher frágil com aquela vista no início da projeção, forte, determinada e com objetivos claros. O público, acompanhando todo aquele turbilhão de sentimentos, se envolve e se deixa levar, não sendo raros os momentos de choro.


Embora tenha um roteiro que beira à perfeição, há duas situações que incomodam por soarem forçadas e fora de sintonia com o resto do filme. A entrevista que Joy dá a uma rede de televisão é mal trabalhada, parecendo tudo muito artificial, principalmente as perguntas que a entrevistadora faz, todas muito abusivas e que não condizem com o que deve ser perguntado a uma mulher que ficou sete anos nas mãos de um sequestrador. Fica claro que a sequência só existe para desencadear determinados acontecimentos. A sequência final também incomoda pelo fator de ser inverossímil demais e leia apenas o resto do parágrafo se você já assistiu ao filme. Pessoas emocionalmente traumatizadas por alguma situação ou circunstância dificilmente voltam a ter contato com aquilo que as traumatizou, já que uma carga de sentimentos absurda é despejada sobre elas se o fizer. Então, Jack e, principalmente, Joy voltarem ao quarto para dar uma última olhada antes dele ser demolido é algo que não convence, sendo útil apenas para que o garoto solte uma frase que mostra o quanto ele amadureceu durante o tempo que está livre: ‘O quarto encolheu?’.


A direção de arte do longa, principalmente durante o tempo em que a história se passa no quarto, é caprichada, sendo possível perceber o quanto a vida da dupla de reféns é organizada e quais as dificuldades que eles enfrentam. A trilha sonora mescla temas mais sérios com temas mais infantis, dando um contraste que funciona por confrontar a seriedade das situações com a alma pura de Jack. A montagem funciona principalmente para dar dinamismo às sequências no quarto, nas quais só há dois personagens interagindo em situações quase banais.


Jacob Tremblay é a maior estrela do filme. O que o garoto, que estava com sete anos quando filmou este O Quarto de Jack, faz neste longa é algo absolutamente deslumbrante. A energia, os sentimentos, os medos, as inseguranças e a sede de conhecimento que o ator consegue transmitir cativam o espectador, criando uma ligação público-espectador fortíssima. Levando-se em conta que atores mais velhos e mais experientes que Jacob não conseguem fazer nem metade do que ele faz, mesmo utilizando apenas a sua voz como nas narrações em off, é algo que coloca esta interpretação dentre as melhores realizadas por uma criança. O ator só não está concorrendo ao Oscar de Melhor Ator porque outros cinco grandes atores em cinco grandes papéis estão na disputa, mas não seria nenhuma injustiça se o garoto tivesse pego alguma das vagas. Brie Larson é o outro pilar de sustentação do longa e sua entrega ao papel é magnífica. A atriz consegue convencer o espectador sobre cada dilema e dúvida que está consumindo a personagem, entregando uma interpretação carregada de sentimento que impacta. Teria o meu voto para o prêmio de Melhor Atriz no qual está concorrendo. Joan Allen aparece apenas na segunda metade do longa, mas sua interpretação é gentil, dócil e calorosa, sendo um porto seguro principalmente para Jack. William H. Marcy aparece pouco, mas sua última sequência é marcante por mostrar todo o preconceito que o seu personagem possui, gerando um sentimento de repulsa por parte do espectador. Sean Bridgers está eficiente como o sequestrador e, embora apareça poucas vezes, o ator consegue gerar a ira e a revolta no espectador das quais o personagem precisa para funcionar. 


Contando ainda com diálogos bem escritos e cheio de sequências que colocam bons atores em seus limites de interpretação, O Quarto de Jack envolve emocionalmente de tal maneira quem o assiste que fica difícil sair da sala de cinema sem antes absorver tudo o que aconteceu. É um longa com uma carga dramática altíssima, com ótimas interpretações de sua dupla de protagonistas e uma história simples, mas que se sustenta na perfeita sintonia entre Brie Larson e Jacob Tremblay. 
NOTA: 9,0

 


INFORMAÇÕES

Título: O Quarto de Jack (Room)
Direção: Lenny Abrahamson
Duração: 117 Minutos 
Lançamento: Fevereiro de 2015
Elenco: Brie Larson, Jacob Tremblay, Joan Allen, William H. Marcy e Sean Bridgers. 



Derek Moraes

Cinéfilo de carteirinha. Nerd de plantão para preencher as mentes ávidas por informações e conhecimento. Especialista em transformar simples conversas em viagens a Hogwarts, Terra Média, Westeros e uma galáxia muito, muito distante.