Crítica – O Caçador e a Rainha do Gelo

[SEM SPOILERS]
Sinopse: Para resgatar o espelho mágico da derrotada Rainha Ravenna (Charlize Theron), Eric (Chris Hemsworth) se une a sua antiga paixão Sara (Jessica Chastain) e aos anões Nion (Nick Frost) e Gryff (Rob Brydon) enquanto cruzam o reino e fogem do exército da Rainha Freya (Emily Blunt), que também deseja o objeto da irmã caída.
 
Lançado em 2012, Branca de Neve e o Caçador ficou mais conhecido à época de seu lançamento por dois fatores que fugiam propriamente das suas qualidades como filme. Primeiro, foi lançado poucos meses depois de Espelho, Espelho Meu, outro longa que adaptava para as telonas a história clássica da Branca de Neve e os Sete Anões, conto originalmente publicado em 1812 pelos famosos Irmãos Grimm. Depois, um caso de traição nos bastidores do filme. Ou seja, do filme mesmo pouca coisa foi comentada. O longa tinha uma ambientação e efeitos visuais competentes, uma direção de arte muito bem feita, contava com dois jovens talentos nos papéis principais (Chris Hemsworth e Sam Clafilin) e uma atriz consagrada e espetacularmente linda como a vilã (Charlize Theron). Não era nada demais, sendo daquele tipo de filme que você esquece assim que sai da sala de cinema. Mesmo a bilheteria do longa de 2012 não foi nada demais, custando US$ 170,0 Milhões e rendendo quase US$ 400,0 Milhões. E nada na sua história dava a entender que haveria uma continuação, o que torna esse O Caçador e a Rainha do Gelo uma surpresa pelo simples fato de existir. E é aqui que os problemas começam.
 
 A Universal mesmo não bota muita fé nessa continuação, o que já é perceptível pelo seu orçamento de ‘apenas’ US$ 115,0 Milhões e o diretor ser o francês estreante Cedric Nicolas-Troyan, que anteriormente só trabalhou como diretor de segundas unidades. O que Cedric faz é dirigir um longa praticamente no piloto automático, não colocando a sua personalidade no material e se aproveitando de tudo aquilo que deu certo no filme original. Para aumentar a qualidade desta continuação, o diretor escolheu duas excelentes atrizes (Emily Blunt e Jessica Chastain) para compor o elenco, diminuiu a dimensão do filme para caber no seu orçamento reduzido, mas sem perder as qualidades técnicas que ajudaram bastante o longa original. Ao mesmo tempo, o francês esqueceu de controlar os roteiristas, já que a história é fraquinha e não se sustenta, principalmente a sua maior parte que é uma continuação do filme de 2012.
 
O primeiro ato, que basicamente é um prequel do longa original, funciona por estabelecer alguns conceitos interessantes e mostrar a origem dos personagens principais, fazendo com que a relação público-espectador seja estreitada. Também serve para evidenciar como os reinos daquele mundo funcionam e se dividem, além de focar no treinamento dos caçadores, tornando as habilidades deste tipo de guerreiro mais críveis para quem assiste. Já a maior parte que é uma continuação falha por não apresentar uma história interessante e mesmo um enredo que se justifique, ficando evidente que precisaram criar uma continuação a partir de um material que não dava margem para tal. Começando pelo sumiço de Branca de Neve, evidenciando que o estúdio teve medo de colocar outra atriz no papel da personagem ou mesmo de colocar novamente Kristen Stewart como a agora rainha. A participação de apenas um anão da história original incomoda por não fazer sentido, ficando a impressão que apenas aquele ator quis voltar para fazer a continuação. Também fica evidente que a desnecessária e breve participação de Sam Clafilin só tem a função de mostrar para o espectador que esse filme é uma continuação daquele de 2012. A busca pelo espelho mágico, que movimenta todo o segundo ato, não convence e os empecilhos que surgem durante as jornadas dos heróis só estão lá para criar alguma tensão que não convence. A própria ressurreição de Ravenna (não é spoiler, está nos trailers) não convence nem a irmã Freya, jogando na cara do espectador que só ocorreu para poderem trazer Charlize Theron de volta.
 
O romance entre Eric e Sara funciona para movimentar o primeiro ato, ao mesmo tempo em que o atrito entre os dois não convence durante o segundo, surgindo forçado e desnecessário. Ficou claro que faltou dinheiro para fazer grandes sequências de batalhas e eu acho até justo e honesto que o filme adeque sua trama ao seu orçamento, para não criar sequências com efeitos especiais porcos, mas fica no espectador aquela vontade de ver algo mais grandioso, já que exércitos se movem de lá para cá e nunca são mostrados em confronto. Os anões são desnecessários na trama, servindo apenas como alívio cômico, não movimentando a narrativa para frente e nem realizando atos fundamentais para o seu desenvolvimento. E depois que duas anãs entram em cena a coisa apenas piora, já que boa parte do humor fica por conta da tentativa de relacionamento dos anãos com as anãs.
 
Os efeitos especiais novamente são um ponto alto no longa, principalmente na recriação do reino gelado de Freya e suas construções, nos poderes das rainhas irmãs e na criação de algumas criaturas digitais, como o urso polar que serve como montaria de Freya. A direção de arte também é eficiente ao criar o interior das florestas pelas quais os heróis atravessam e o interior do castelo da Rainha do Gelo. A montagem é deficiente principalmente no segundo ato, onde o ritmo cai um pouco e os obstáculos que os heróis enfrentam parecem forçados demais. No primeiro e no terceiro ato a montagem consegue criar um ritmo e uma sensação de urgência que criam um clima agradável de ser assistido. A trilha sonora é genérica e esquecível, mas cumpre a função de conduzir e pontuar o filme. A música escrita especificamente para o longa, Castle da cantora Halsey, que só aparece nos créditos finais e nos trailers, possui uma energia interessante e combina com a proposta do longa. A fotografia se vale do reino gelado de Freya para proporcionar imagens belíssimas. Os figurinos das irmãs rainhas são extravagantes e parecem pouco práticos, mas são absolutamente bonitos e aumentam a aura de poder e imponência das duas. Para os caçadores os figurinos são mais sóbrios e parecem ajudar mais às suas necessidades.
 
As habilidades dos personagens são exibidas à exaustão, o que garante boas sequências de ação durante o filme. As habilidades de Eric e Sara são bem aproveitadas e são críveis para serem assistidas, convencendo o espectador que os atores de fato são capazes das proezas que estão mostrando na tela. Freya consegue impor respeito a partir de seus poderes de gelo, que são amplamente utilizados para os mais diversos fins. Os mais observadores vão perceber que a Universal quis, na verdade, ter a sua própria Elsa e tentar surfar no, aparentemente, eterno sucesso de Frozen – Uma Aventura Congelante (2013) e o resultado é convincente. Ravenna também tem as suas capacidades exploradas, mas em menor quantidade, já que a personagem tem pouco tempo de tela e menos ainda em ação.
 
Chris Hemsworth entrega uma interpretação leve e que ri de si mesmo, o que garante um humor inesperado. O ator cada vez mais se firma como um talento em ascensão, conseguindo se desassociar da imagem de Thor com sucesso. É incrível a disposição física, a energia e o carisma que Chris consegue colocar em seus personagens, sempre aumentando o valor de suas interpretações. Jessica Chastain, uma das melhores atrizes de Hollywood atualmente, está bem no primeiro ato e depois sua personagem não consegue convencer tentando mostrar que não ama mais Eric, criando um conflito  chato e desnecessário. Ao menos a atriz consegue colocar vigor em sua personagem e confesso não me lembrar de um outro papel que tenha exigido tanto fisicamente dela, o que ela faz com eficiência e com muito talento. Emily Blunt, outra excelente atriz, consegue entregar uma Rainha do Gelo com imponência física e presença de tela, mas a personagem exige que a atriz fale tudo de maneira monocórdica, apática, sem vida, o que não combina com ela, criando um contraste que incomoda. Charlize Theron, por outro lado, interpreta Ravenna de maneira psicótica, histérica e surtada, possibilitando que o espectador aproveite mais do talento da atriz. Mesmo aparecendo pouco, o que mostra que a personagem talvez não fosse tão necessária assim para a trama, a atriz consegue ser lembrada como se tivesse aparecido durante toda a projeção. Nick Frost e Rob Brydon estão bem, principalmente Frost que é um comediante inglês de muito talento, mas a verdade é que o roteiro não justifica de maneira convincente a presença dos personagens na narrativa, ficando claro que não deveriam estar ali. Um excesso que poderia ser facilmente eliminado sem alterar muito o roteiro.
 
O Caçador e a Rainha do Gelo é tecnicamente eficiente e agrada aos olhos, possui grandes atores em boas interpretações na sua maioria, mas o roteiro é fraco, com vários excessos e um ritmo irregular, o que acaba não justificando a existência dessa continuação.
 

NOTA: 6,0

 
 
INFORMAÇÕES
Título: O Caçador e a Rainha do Gelo (The Huntsman: Winter’s War)
Direção: Cedric Nicolas-Troyan
Duração: 114 Minutos
Lançamento: Abril de 2016
Elenco: Chris Hemsworth, Emily Blunt, Charlize Theron, Jessica Chastain, Nick Frost e Rob Brydon.

 

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Derek Moraes

Cinéfilo de carteirinha. Nerd de plantão para preencher as mentes ávidas por informações e conhecimento. Especialista em transformar simples conversas em viagens a Hogwarts, Terra Média, Westeros e uma galáxia muito, muito distante.