Crítica – O Bom Dinossauro

[SEM SPOILERS]

Sinopse: Numa Terra não atingida pelo meteoro que eliminou os dinossauros, os próprios e outras espécies de animais evoluídos habitam o planeta. A família de apatossauros chefiada pelo pai Henry (Jeffrey Wright) e pela mãe Ida (Frances McDormand) cuidam da sua fazenda juntamente com seus filhos, a esperta Libby (Maleah Padilla), o forte Buck (Marcus Scribner) e o medroso Arlo (Raymond Ochoa). Um incidente acaba levando Arlo para longe de sua casa, fazendo-o encontrar o garoto das cavernas Spot (Jack Bright). Do inusitado encontro surge uma ligação essencial para que Arlo enfrente os perigos do mundo e volte para a sua família.


A produção de O Bom Dinossauro começou em 2009 com previsão de estreia para novembro de 2013. Após problemas nos bastidores, que incluíram mudança na direção, revisão da história e alteração dos atores dubladores, o longa finalmente estreou dois anos depois. Não há uma regra geral para a qualidade dos filmes que tiveram seus bastidores tumultuados. O resultado final pode ser um ótimo filme, como no caso de Homem-Formiga (2015), ou um longa ruim, o que aconteceu com o Quarteto Fantástico (2015). O Bom Dinossauro fica no meio termo. Está aquém da maioria das produções da Pixar principalmente pela sua história fraca, mas impressiona pela técnica da animação e pela comovente relação entre Arlo e Spot.


O americano Peter Sohn tem mais de quinze anos de vivência em animações, mas este é o seu primeiro filme como diretor de um longa metragem. Anteriormente, a experiência de Peter nas animações havia sido como dublador, animador, produtor de arte e diretor de curtas metragens. A principal dificuldade encontrada pelo diretor em O Bom Dinossauro é dar um recheio melhor ao filme, o que significa criar subtramas interessantes e personagens secundários memoráveis. A história central é bem estabelecida, assim como o núcleo familiar dos apatossauros. Há fluidez na narrativa principal, que é a relação entre Arlo e Spot, o amadurecimento dos dois e a tentativa do dinossauro em voltar à sua casa. Mas todo o resto é deixado demais em segundo plano, dando a sensação no espectador que muito mais daquele universo poderia ser explorado. 

A premissa do longa, que seria a não eliminação dos dinossauros, já possibilita algumas oportunidades interessantes que o filme utiliza de maneira satisfatória. A convivência entre Arlo e Spot é um exemplo. A convivência entre dinossauros e outros animais mais evoluídos que se assemelham mais aos que existem hoje em dia, como búfalos, é outro. É interessante como o longa estabelece todo o núcleo familiar dos apatossauros, com sequências agradáveis como os cuidados com a fazenda, para só depois mostrar a grandiosidade do mundo envolvido, criando uma sensação de apreensão no espectador que funciona, já que estávamos imersos nas relações familiares sem nos darmos conta que, na verdade, o mundo apresentado é um mundo selvagem, em que mata-se para sobreviver. Os encontros que Arlo e Spot têm durante sua jornada enriquecem a narrativa, além de serem fundamentais para o aprendizado e amadurecimento dos dois. Fica a impressão que aquele mundo é pouco povoado, já que nunca vemos muitos dinossauros juntos, sendo mostrados apenas pequenos grupos com participações pontuais na história. Com o objetivo de criar uma história mais minimalista e intimista o longa desperdiçou a oportunidade de aproveitar mais as inúmeras espécies de dinossauros existentes e as suas consequentes possibilidades narrativas. 

Além das aventuras de Arlo e Spot, nada mais no longa é relevante ou meramente interessante. Há muito pouco para se aproveitar. Muito pouco para se importar que não sejam os dois. Nenhum personagem secundário é carismático ou cativa o espectador, criando um longa que depende muito mais de seus dois protagonistas o que é, felizmente, o que ele tem de melhor. Os vilões, que não precisavam existir no longa, aparecem em duas sequências e não mudam em nada a condução da história, sendo apenas uma tentativa de criar alguma tensão, soando forçado. É a típica situação em que a produção do filme acha que o expectador precisa ver algum tipo de confronto para sair realizado da sessão. Há pelo menos três referências óbvias a O Rei Leão (1994) que criam a sensação inversa a que se propõem. Ao invés do espectador se sentir feliz por estar vendo referências a um dos maiores filmes de todos os tempos, ele se sente frustrado por já ter visto aquilo sido feito de maneira melhor. Os personagens secundários aparecem em sequências específicas, cumprem determinada função e depois somem, dificultando qualquer conexão entre espectador e personagem. 

Por sorte, aquilo que mais importa na história do longa é realizado de maneira primorosa. A relação entre Arlo e Spot é daquelas em que o espectador se envolve até a alma, com uma catarse de arrancar lágrimas dos olhos de todos. A relação é conduzida de maneira orgânica, primeiramente com um compreensível ódio de Arlo em relação a Spot, e depois com um crescente de carinho, companheirismo, dedicação e confiança que convence. As características dos personagens ajudam a criar empatia, como a covardia de Arlo e a coragem e inocência de Spot, que faz de tudo para agradar o dinossauro. Tudo nos personagens é construído de maneira tão perfeita que quando é apresentada uma sequência em que Spot representa a sua família através de gravetos, é inevitável o surgimento de um nó na garganta do espectador. Se formos levar em consideração todo o marketing que a Disney fez em cima do filme focando a amizade entre os dois, não poderia haver melhor maneira de convencer alguém ir assistir a O Bom Dinossauro.


A fotografia do longa é belíssima, com algumas paisagens que impressionam, como as florestas, o rio e as planícies. A fotografia é especialmente marcante na sequência em que Arlo e seu pai passeiam pelo campo de vaga-lumes de noite. A animação em si é fluída e perfeita, como sempre foi a característica da Pixar, mostrando detalhes interessantes como as marcas das escamas dos apatossauros e o emaranhado cabelo de Spot, evidenciando um cuidado técnico que o estúdio mantém em todas as sua produções. A trilha sonora é razoável e não é memorável, sendo que o seu principal tema lembra muito o principal tema do longa Coração Valente (1995), trazendo memórias no espectador que não deveriam estar lá naquele momento. 

A dublagem nacional é eficiente e não compromete, escolhendo vozes adequadas para os personagens. Foi escolhido um estúdio de São Paulo para a realização da dublagem, o que não é comum nas produções da Pixar. De todos os seus longas, apenas Divertida Mente (2015) e este O Bom Dinossauro foram dublados na cidade. É uma decisão inteligente da Disney, o estúdio que controla a Pixar. Mudar as opções de dubladores cria uma diversidade bem-vinda. O trio dos Barbixas dubla três personagens, mas os mesmos são tão secundários que praticamente não dá nem para perceber que são eles dublando e nem para avaliar a qualidade de suas dublagens.



Ficando próximo da qualidade de longas como Valente (2012) e longe dos méritos de filmes como Divertida Mente (2015), O Bom Dinossauro mostra que a Pixar é um estúdio que prima pela qualidade técnica de suas produções, mas o roteiro vez ou outra falha. O coração que os filmes do estúdio possuem está lá. Aquele sentimento de carinho e entrega para o bem do próximo também. Só faltou colocar tudo que fosse secundário em um patamar de qualidade maior. De qualquer maneira, é um longa engraçado e a dinâmica entre Arlo e Spot faz o ingresso valer à pena.

NOTA: 7,0

 
Obs: O curta de animação que é exibido antes de O Bom Dinossauro é o Sanjay’s Super Team. O curta é tecnicamente exuberante e trás um interessante contexto hinduísta que surpreende pela ousadia da sempre conservadora Disney. A história é convencional, mas por ser baseada em uma acontecimento real da vida de um dos animadores da Pixar então não é possível fugir muito de certos conceitos. Dá para se divertir mais com o que está sendo visto do que com aquilo que está sendo contado.
 

 


INFORMAÇÕES

Título: O Bom Dinossauro (The Good Dinosaur)
Direção: Peter Sohn
Duração: 100 Minutos 
Lançamento: 07/01/2016
Elenco: Raymond Ochoa, Jack Bright, Frances McDormand, Jeffrey Wright, Marcus Scribner e Maleah Padilla.



Derek Moraes

Cinéfilo de carteirinha. Nerd de plantão para preencher as mentes ávidas por informações e conhecimento. Especialista em transformar simples conversas em viagens a Hogwarts, Terra Média, Westeros e uma galáxia muito, muito distante.