Crítica – No Coração do Mar

Sinopse: Em 1850, o escritor americano Herman Melville (Ben Whishaw) entrevista o último sobrevivente vivo do naufrágio do baleeiro Essex Thomas Nickerson (Brendan Gleeson). Sob a perspectiva do jovem Nickerson (Tom Holland), a história volta até 1820, quando o baleeiro Essex parte em busca de óleo de baleia através dos oceanos, sendo capitaneado por George Pollard Junior (Benjamin Walker) com a ajuda do Primeiro Imediato Owen Chase (Chris Hemsworth) e do Segundo Imediato Matthew Joy (Cillian Murphy).
O livro Moby-Dick lançado em 1851 e escrito por Herman Melville é uma das principais obras da literatura americana, um clássico que atravessa gerações e não perde sua força, possuindo diversas adaptações para o cinema, televisão e teatro. O enredo de Moby-Dick é baseado na história verídica do naufrágio do baleeiro Essex no Oceano Pacífico em 1820 causado por uma descomunal baleia branca e deixando poucos sobreviventes para contar a história. O que o diretor Ron Howard, juntamente com o roteirista Charles Leavitt, quer neste No Coração do Mar é contar esta história magnífica de superação humana contra a natureza através da visão de um marinheiro novato e tendo como personagem principal o Primeiro Imediato que é discriminado pelo seu sobrenome. O diretor entrega um longa visualmente lindíssimo, com uma história que prende a atenção do espectador do começo ao fim da projeção e com personagens tridimensionais que captam a atenção do público.
Ron Howard talvez seja o diretor da sua geração menos conhecido do grande público, mas também um dos mais talentosos. O americano dirigiu filmes excelentes como Apollo 13 – Do Desastre ao Triunfo (1995), Uma Mente Brilhante (2001) e Rush – No Limite da Emoção (2013) e filmes bons como O Grinch (2000), O Código da Vinci (2006) e Anjos e Demônios (2009). Howard consegue alternar entre os gêneros de maneira primorosa, se arriscando em dramas, dramas biográficos, filmes infantis, suspenses e comédias. Neste No Coração do Mar, o diretor novamente acerta em praticamente tudo, só pecando na escolha de um ator do elenco que será discutido mais adiante. A energia que Howard consegue empregar em sequências aparentemente simples é digna de reconhecimento, como a empolgante sequência em que o Essex se prepara para começar sua viagem, onde ordens são gritadas e obedecidas, ações são realizadas e pequenos problemas surgem, tudo com uma trilha sonora enérgica ao fundo. Nas sequências mais relevantes o diretor consegue fazer com que o espectador entenda todo o panorama do que está acontecendo, como a posição dos personagens, suas ações e consequências, nada de câmera tremida e cortes frenéticos. A escolha de mesclar as sequências de 1820 com as sequências de 1850 é acertada, já que o espectador pode ver como cada decisão tomada antes, durante e depois do naufrágio afetou e ainda afeta o entrevistado Thomas Nickerson e como seu caráter e suas atitudes foram moldadas a partir dos acontecimentos com o Essex.
 
O roteiro é feliz ao estabelecer logo no começo do longa que o personagem principal da história é o Primeiro Imediato Owen Chase, então um tempo de projeção é gasto para entendermos o personagem, suas ambições, suas mágoas, seu amor pela família e suas habilidades na função que exerce no navio. Estabelecer a importância dos baleeiros no século XIX também é importante, já que o espectador precisa saber o porquê de homens perderem anos no mar para voltarem com barris cheios de óleo de baleia. Toda a mesquinharia e politicagem que envolvem os homens do poder, aqueles que são os donos dos navios e precisam que a prática continue para lucrarem em cima dela, é mostrada de maneira eficiente no primeiro ato e no terceiro ato, criando ainda mais simpatia do espectador para com os tripulantes das embarcações. A discriminação das pessoas em função de seu sobrenome é retratada perfeitamente, tornando crível algumas das atitudes tomadas durante o longa mesmo que não fossem as atitudes mais lógicas. A dinâmica dentro do Essex, com os tripulantes realizando suas funções, o respeito aos superiores, o estabelecimento da hierarquia e as dificuldade enfrentadas por qualquer navio naquela época é a melhor retratação do tipo no cinema desde o ótimo Mestre dos Mares – O Lado Mais Distante do Mundo (2003). O relacionamento entre os personagens principais é bem conduzido, mostrando a relação próxima entre Owen e Matthew com um diálogo rápido, o menosprezo de George para com Owen, a admiração de Thomas em relação ao Primeiro Imediato e a falta de liderança que o Capitão George representa para toda a tripulação. É uma dinâmica rica com personagens bem escritos, criando uma fluidez na narrativa que carrega o espectador durante toda a projeção.
O longa é praticamente todo fotografado utilizando uma paleta de cores com foco nas cores azul e verde, criando imagens belíssimas e impactantes, com destaque para toda a sequência de destruição do Essex e da primeira aparição da gigantesca baleia branca através da sua enorme cauda que impressiona os tripulantes no mar. Os efeitos especiais são perfeitos, criando baleias e golfinhos de maneira realista e paupável, dando peso aos animais. A baleia branca principal é um show a parte devido à qualidade de sua concepção. Novamente a sequência que mostra o naufrágio do Essex chama a atenção pela qualidade dos efeitos especiais, tornando um dos momentos mais dramáticos e frenéticos do longa ainda mais memorável. A trilha sonora é empolgante e dramática em doses iguais e pontua o filme de maneira excepcional, transmitindo emoções que complementam o que está sendo mostrado na tela. A direção de arte realiza um trabalho impecável principalmente com a criação do Essex tanto externa quanto internamente, com uma riqueza de detalhes que impressiona pela complexidade.
 
As sequências de caça às baleias impressionam pela realização. A primeira sequência, como em qualquer filme bem escrito, mostra uma operação bem realizada e funcional. Mostra como a caça é realizada, a função de cada um nos botes, as ações e atitudes que devem ser realizadas e os resultados que são esperados. A segunda sequência é a do naufrágio do Essex e é realizada de maneira grandiosa, com o aparecimento da enorme baleia branca e o desespero dos tripulantes. São duas sequências importantes que capturam ainda mais a atenção do espectador, fazendo com que a imersão no longa seja absoluta.
Chris Hemsworth está ótimo como Owen Chase, mostrando mais uma vez que não depende de Thor para fazer sucesso em Hollywood. O ator consegue fazer com que as habilidades e conhecimentos de marinheiro do personagem sejam críveis, aumentando ainda mais a sua relevância e importância no longa. A transformação física que o ator sofre é visível e plausível, não soando falsa como a de Matt Damon em Perdido em Marte (2015), dando mais credibilidade ao ator. E o respeito que a tripulação do Essex possui para com o seu Primeiro Imediato é justificada em cada ação honrada do personagem. Benjamin Walker é o ponto fraco do filme. O ator não é tecnicamente eficiente e não consegue fazer com que seu personagem passe de um chato arrogante. Mesmo que sua última ação seja de redenção, cada vez que o personagem aparece na tela fica difícil para aceitar um ator sem expressão como Benjamin. Cillian Murphy está bem como sempre. É incrível como o ator irlandês dificilmente compromete um filme, sempre interpretando com disposição e energia os mais diversos papeis. Aqui, Murphy interpreta um personagem sofrido, mas muito respeitado pelos seus semelhantes e muito voluntarioso em suas ações em relação ao grupo. Tom Holland mostra o mesmo talento que mostrou no bom O Impossível (2012), se entregando de corpo e alma a um personagem voluntarioso e admirado pelos adultos. Fica a expectativa pelo que o ator pode fazer no papel do novo Homem-Aranha. Ben Whishaw está discreto, porém eficiente como o personagem que busca pela história do naufrágio do Essex, sumindo com todo o seu sotaque britânico que apresenta na franquia 007 ao interpretar o célebre escritor Herman Melville. Brendan Gleeson está ótimo como o velho Thomas Nickerson e em uma sequência em particular o ator é feliz ao transbordar ressentimento e vergonha por uma atitude que escondeu durante toda a sua vida, tornando ainda mais crível as suas atitudes e postura como adulto e sua relação tumultuada com a esposa.
 
Prendendo a atenção de ponta a ponta, No Coração do Mar conta com um elenco, na sua quase totalidade, bem afinado, uma história chamativa, um roteiro eficiente e um visual arrebatador. Mais uma vez Ron Howard nos entrega um longa bem realizado e mostrando todo o seu potencial como diretor. Um filme que precisa ser visto por todo aquele que é apaixonado pela sétima arte.

Nota: 9,0

TRAILER

INFORMAÇÕES
Nota: 9,0
Titulo Original: In the Heart of the Sea
Titulo Nacional: No Coração do Mar
Direção: Ron Howard
Duração: 122 Minutos 
Ano de Lançamento: 2015
Lançamento nos EUA: 11/12/2015
Lançamento no Brasil: 03/12/2015

Elenco: Chris Hemsworth, Benjamin Walker, Cillian Murphy, Tom Holland, Ben Whishaw e Brendan Gleeson.


Derek Moraes

Cinéfilo de carteirinha. Nerd de plantão para preencher as mentes ávidas por informações e conhecimento. Especialista em transformar simples conversas em viagens a Hogwarts, Terra Média, Westeros e uma galáxia muito, muito distante.