Crítica – Mulher Maravilha

[SEM SPOILERS]

Criada por Charles Moulton e tendo sua primeira aparição nos quadrinhos em 1941, Diana Prince, a Mulher-Maravilha , é um ícone de super-heroína feminina e, a posteriori, se tornou um ícone feminista na nona arte. Utilizando-se de signos como os braceletes, representando a proteção, o laço, representando a verdade, as cores americanas, representando a liberdade, e ela própria, por ser mulher, representando amor, mas também superação, a personagem teve seu forte marco na cultura pop recompensado com estrelato na adaptação para a série de TV de 1970 através da atriz Lynda Carter.

Hoje, graças à onda de filme de super-heróis e lutas sociais, finalmente temos o primeiro filme da Mulher-Maravilha no cinema, sendo também o primeiro longa com super-heroína como protagonista. Isso é um grande ganho à representatividade feminina, pois esse excelente filme apresenta a ideal representação de uma heroína, e também um ganho sem tamanho para o DCEU (Universo Expandido da DC), sendo, sem sombra de dúvida, o seu melhor filme, principalmente por ser uma história concisa, simples, que sabe o quer desde de início e, graças a Patty Jenkins, bem desenvolvida. E muitos outros temas, além do feminismo, são bem explorados pelos contrastes de costume da época e da personagem inocente. Há discussões a respeito do próprio ser humano, se somos realmente maus ou bons,  sobre as consequências da guerra e principalmente sobre o que é ser um herói e como tal ser tem seu poder não por sua origem, mas por amar a humanidade. Era algo que a DCEU devia ter feito com o Superman, porém na sua ausência, Diana consegue nos mostrar que um herói faz o bem pelo próprio bem, uma volta ao herói clássico, algo que emerge das águas sombrias que os filmes da DC navegavam ao apresentar “heróis” dúbios e até mesmo ensinando a Marvel que nem sempre um herói só deve agir por vingança, resgate, interesse pessoal, redenção, sobrevivência ou tentativas de consertar os próprios erros. Os heróis de verdade sabem “deixar suas ilhas” e encarar o mundo real com valentia na “linha de frente” por pessoas que nem mesmo conhecem, proteger as pessoas mesmo que não queriam isso, utilizando-se de verdade e se transformando em um “escudo” se necessário.

Toda essa mensagem está sedimentada num bom roteiro ao melhor formato “Jornada do Herói”, porém mais do que válido nesse caso, afinal de contas estamos falando de uma personagem que bebe na fonte dos mitos gregos. A história se passa cerca de cem anos antes dos eventos de Batman vs Superman: A Origem da Justiça, contando a origem de Diana, a filha da Rainha Hipólita e princesa da Ilha de Temíscira, habitada pelo lendário povo das Amazonas. Desde cedo, ela se mostra ávida para o combate e é treinada por sua tia Antíope ao longo dos anos, para cumprir um destino nebuloso. Mas sua vida muda com a chegada de Steve Trevor, um jovem espião britânico que acaba sofrendo um acidente próximo à Ilha Paraíso. Consigo, ele traz as notícias da Primeira Guerra Mundial, que vem assolando o mundo externo à ilha. Assim, mesmo contra a vontade de sua mãe, Diana se junta ao soldado e deixa sua casa, decidida a impedir aquele que ela crê estar manipulando tal guerra: Ares, Deus da Guerra.

Talvez a única falha no roteiro seja a inevitabilidade de previsibilidade do final da história por se utilizar desse tipo de jornada e, por se passar no passado, você já saber que a Grande Guerra será vencida e que o mundo não acabará. No entanto há mais um problema que não é bem uma falha, porém um recurso mal usado, que é a mitologia. Nos primeiros minutos é tecido que a relação entre Zeus e Ares é análoga a de Deus e Lucífer, algo ruim por querer dar um olhar “cristão” a outra cultura e, pior, deixar os deuses maniqueístas, o que os faz ter personalidades muito rasas, algo que irei discutir mais a frente.

Em suma, é um filme que começa de maneira espetacular, dinâmico, têm diálogos muito bons com cenas reflexivas, momentos de humor bem feito e ponderado, algo que dá mais vida e positividade a morbidez dos recentes filmes da DC, sendo que esta sempre foi o exemplo de heróis “éticos e esperançosos” e, no fim, algo previsível, de uma epifania hollywoodiana clichê, mas que pelo menos não chega a estragar todo o clima dos dois primeiros atos do filme.

Sobre os atores e personagens, todos os louros à Gal Gadot por entregar uma Diana formidável e tão humana, mesmo sendo uma semideusa. Ela é o ideal de “personagem feminina forte” pois não é masculinizada, é “empoderada”, sendo uma mulher dotada de beleza, mas também força, inocente, mas rebelde, capaz de amar, sentir dor, amizade e culpa, liderar e seguir seus ideais não deixando que amarras, sejam de uma sociedade de amazonas ou de soldados, a segurem diante do que ela acha que é o certo a se fazer.

Chris Pine como Steve Trevor também não deixa a desejar, sendo uma dupla forte com Gadot com sua atuação já reconhecida e por  um personagem que é, em certos aspectos, o contraponto de Diana, pois ele apresenta a sua visão de mundo e ela a dela, ele é realista e ela é idealista, ambos aprendem um com o outro e se inspiram, com Trevor aprendendo sobre sacrifício e Diana sobre os tons de cinza do coração humano. As Amazonas, no geral, são sensacionais, seja a Rainha Hipólita, super-protetora, mas justa, ou Antíope, uma guerreira fiel que é a fonte do idealismo de Diana.

No entanto, não há acertos em todos os personagens. O vilão, Ares, por ser uma personificação do mal, é raso, tanto em suas motivações quanto em sua forma, uma vez que o uso do CGI em sua forma física e nos seus poderes presentes no final do terceiro ato é muito ruim e mal trabalhado junto a câmera. Os “comparsas” do vilão também são bem previsíveis e caricatos, mesmo na tentativa de usá-los num subplot da trama. O equivalente vale aos companheiros de Trevor, que são arquétipos de soldados já desgastados, esquecíveis e completamente desnecessários. Basicamente estão lá para preencher a cena e suprir o humor quando Diana não o faz.

Quanto à direção, podemos dizer que há boas ideias e falhas que se destacam muito. Patty Jenkins nos dá cenas de ação muito bem dirigidas, você entende perfeitamente o que está se passando em cada momento do combate, te dando uma boa noção espacial, mas em muitas cenas mais “paradas”, como em diálogos, as angulações e enquadramentos de câmera usam demasiadamente closes e fecham muito o personagem a ponto de você não conseguir ver o entorno, prejudicando grande parte da apreciação do cenário no segundo e terceiro atos em cenas mais fechadas.

Uma técnica usada com primazia foi o slow motion, que embora recorrente em cena, não é cansativo e sim algo estético e mais poético. Veja bem, a maioria dessas cenas acontece com as “amazonas” ou seja, a câmera lenta dá uma sensação de que elas são graciosas, fortes e mais rápidas que nós, pois são sobre humanas. Além disso, quanto tal técnica se associa a elas, a luta se transforma num verdadeiro balé com uma coreografia de tirar o fôlego, algo bem ao estilo de filmes como “Matrix”, ”Herói” e “Tigre e o Dragão”. Há frames, inclusive, que lembram quadros renascentistas de cenas mitológicas greco-romanas.

Por outro lado parece que  por falta tempo ou experiência no ramo ou até de dinheiro, a diretora falha, e muito, em grande parte das cenas que se utilizam de CGI. Se os movimentos “divinos” de Diana são orgânicos, no ato final Ares mais parece um ser tirado de um vídeo game, é difícil entender seu corpo e seus constructos, e seus poderes são confusos e mal feitos. Até mesmo Diana que ia bem, ao chegar nessa parte, parece perder a leveza na luta. Somado a um take muito escuro, pra variar, a luta no final é tão mal executada, clichê e descabida, que destoa de todas as cenas de ações excelentes do filme. Parece que nessa cena a diretora quis fazer algo grandioso, mas nem tanto, e ficou com um pé no céu e outro pé no chão, não engrandecendo o filme e só destoando.

Os ademais fatores, entretanto, são muito elogiáveis. A fotografia de Matthew Jensen, que cria um belo contraste entre o azul e o laranja, cores muito presentes na divulgação do longa. Essa transição acaba servindo como uma bela alegoria para a passagem do mítico à guerra. A trilha sonora Rupert Gregson-Williams sabe criar grandeza quando necessária, jogar adrenalina em nossas veias nas cenas de ação e até mesmo passar o silêncio desesperador da guerra. Isso sem contar os cenários, com destaque à Temíscira, que chega ser palpável tal qual Valfenda em “O Senhor dos Anéis”.

No frigir dos ovos, podemos dizer com toda certeza que Mulher-Maravilha cumpre bem o seu papel de flashback/filme-de-origem, nos deixando ainda mais apaixonados pela Diana de Gal Gadot. Eu aposto que o cenário de representatividade das mulheres, tanto nos quadrinhos, quanto no cinema vai acabar sendo influenciado, e isso é muito bom, pois a diversidade é o segredo da arte. Se tem um vilão raso ou se a história não é 100% ligada aos acontecimentos que virão de Liga da Justiça e dos demais filmes do DCEU (aliás, não tem cenas pós-créditos), isso pouco importa, pois o filme sustenta a si e até um franquia sozinho.

Esse filme vale sim apenas ser visto nos cinemas principalmente se você é como nós, fã de heróis e da DC, e quer ver um herói que faz “o bem pelo bem”, um herói raiz, que ama a humanidade, que traz justiça, verdade e esperança. E não digo isso para fazer parecer que a Mulher-Maravilha é um “Superman de saia”.

Pois esse Homem de Aço não é um décimo do que a Princesa de Temíscira é no DCEU.

NOTA: 8,5

 

INFORMAÇÕES
Título: Mulher-Maravilha (Wonder Woman)
Direção: Patty Jenkins
Duração: 141 Minutos
Lançamento: Junho de 2017
Elenco: Gal Gadot, Chris Pine, Robin Wright, Danny Huston, David Thewlis e Connie Nielsen.

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Ailton Borges

"Eu caminhei pela superfície do sol, testemunhei eventos tão mínimos e rápidos que mal podem-se dizer que ocorreram." -Dr. Manhattan

  • Como vi muitos dizendo por ai, o filme é tão bom que parece da Marvel