Crítica – Mogli: O Menino Lobo (2016)

[SEM SPOILERS]

Sinopse: Salvo pela pantera Bagheera (Ben Kingsley) e criado desde a infância pela loba Raksha (Lupita Nyong’o), Mogli (Neel Sethi) se vê perseguido pelo tigre Shere Khan (Idris Elba), fazendo com que a vida do garoto se torne uma jornada pela selva onde irá cruzar com criaturas como a cobra Kaa (Scarlett Johannsson) e o urso Baloo (Bill Murray), enquanto sua matilha, liderada por Akela (Giancarlo Esposito), tenta proteger seu paradeiro.

Desde 2010 a Disney tem investido em adaptar suas influentes e marcantes animações em longas em live action. Na verdade o estúdio se viu diante de uma potencial mina de ouro: utilizar personagens já inseridos na cultura pop mundial através, na maioria das vezes, de suas animações, modificando a forma como estes personagens são apresentados, agora com atores reais, em histórias que chamam a atenção de espectadores das mais diversas idades, tanto aqueles que cresceram assistindo em VHS as animações da Disney quanto os mais novos que já não são tão captados pelos antigos, porém irresistíveis, desenhos animados em 2D. E o mais interessante, as histórias dos novos filmes não  contam, necessariamente, as mesmas histórias das animações, há diversas possibilidades narrativas que o estúdio soube aproveitar. Em 2010 tivemos Alice no País das Maravilhas, uma continuação da animação de 1951. Em 2014 Malévola, que se trata da história da Bela Adormecida (1959) contada por um outro ângulo, no caso o da vilã. Em 2015 Cinderela adaptou seu filme homônimo de 1950, mas com uma roupagem elegante e uma direção de arte digna de um longa de princesas. O próximo passo é este Mogli – O Menino Lobo, que conta a mesma história do filme de 1967, por sua vez baseado no livro de Rudyard Kipling de 1894, mas com efeitos especiais de primeira qualidade, impressionando visualmente, mas sem perder a sua alma que caracteriza todos os longas da Disney. E nos anos seguintes ainda teremos as adaptações de A Bela e a Fera (2017) e A Pequena Sereia (sem data), sendo este último adaptado pela Universal.

Para comandar este Mogli o escolhido foi o diretor americano Jon Favreau  que todo mundo conhece por ter dirigido os dois primeiros Homem de Ferro (2008 e 2010), além de Zathura – Uma Aventura Espacial (2005). Favreau é conhecido por conseguir dar aquele ar de aventura de Sessão da Tarde aos seus filmes, mas sem nunca diminuir a relevância da história que está sendo contada, criando filmes tematicamente impactantes, visualmente marcantes e com aquela energia de que tudo não passa de uma gigantesca diversão. Favreau sabe fazer um cinema pipoca de qualidade. E em Mogli o diretor está inspiradíssimo e consegue entregar um filme em que há apenas um ator atuando durante toda a projeção, animais criados por computação gráfica perfeitos e um ritmo agradável de se entregar ao desconhecido que agrada a quem assiste. A jornada de autoconhecimento do garoto na selva e onde ele conhece diversos personagens que mudam a sua maneira de ver o mundo garantem um arco dramático interessante de ser acompanhado e relevante para a narrativa que está sendo contada. E Favreau sabe contar essa jornada de tal forma que o espectador se vê fascinado por aquilo que está acompanhando nas telas, se tornando um filme agradável de assistir.

A dinâmica dos habitantes da selva cria uma mitologia própria daquele universo e serve para estabelecer os personagens de maneira mais crível. Então temos os elefantes, que são reverenciados como os criadores da selva, a matilha de lobos com sua hierarquia interna, os macacos com sua organização política particular e os felinos não vivendo em grupos de suas próprias espécies. A selva é magistralmente representada, destacando a ótima direção de arte do filme, dando a impressão que o local é dividido em ambientes menores, como o covil gótico de Kaa, as rochas dos lobos e a antiga cidade dos macacos, enriquecendo tudo aquilo que é visto nas telas, aumentando o valor de produção do longa. A jornada de Mogli é simples, porém cheia de significado, onde o garoto aprende sobre a injustiça, a mentira e a ambição que assolam os animais. Conforme o garoto viaja pela selva ele vai aprendendo sobre a vida e seus aspectos, além de aprender suas origens e seu potencial como humano que, a princípio, é discriminado, mas é destacado conforme a narrativa avança como uma marca de suas origens, uma marca do seu ser. A sensação de descobrimento e de fascínio que o garoto sente conforme é apresentado à novas criaturas e situações é paupável pelo espectador, méritos da interpretação do jovem Neel Sethi e do diretor Jon Favreau, que conseguiu com que uma criança, atuando sozinha, entregasse uma interpretação tão leve e espontânea.

A mistura de tons é onde o filme peca, já que há sequências inteiramente leves e outras absurdamente pesadas convivendo juntas na narrativa e a transição de uma para outra não é orgânica. Fica parecendo que o longa não sabe em qual focar, se no drama de sobrevivência de Mogli na selva sendo perseguido por Shere Khan ou na jornada de autoconhecimento do garoto enquanto amadurece e aprende mais sobre a vida. Quando você vê uma sequência extremamente divertida como aquela em que Baloo e Mogli convivem juntos, a sensação é que esta parte do filme não faz parte do mesmo filme que pouco antes nos mostrou uma cobra quase matando o garoto. Não é algo que compromete a experiência de assistir ao longa, longe disso, mas incomoda pelo contraste entre tons que, neste filme, não é bem realizado.

A fotografia do longa é linda, evidenciando a beleza da selva e seus diversos ambientes, criando  também sequências visualmente marcantes mesmo que não sejam belas, como os guinus na encosta da montanha e o incêndio no ato final do filme. A montagem só compromete pelo fato de não realizar a transição entre sequências com tons diferentes de maneira eficiente, mas em todo o resto do filme a montagem consegue sempre empurrar a narrativa para frente e sempre colocando sequências que acrescentam à história, resultando em um longa dinâmico e objetivo. A trilha sonora é evocativa e consegue pontuar bem as sequências e situações, mas o grande destaque fica pela música ‘The Bare Necessities’ que todos irão se lembrar do longa original de 1967 e que é empolgante de ser assistida com Neel Sethi e Bill Murray a interpretando. Mas o grande destaque deste Mogli são os efeitos especiais. Em nenhum momento do filme você é capaz de dizer que aquilo que está sendo apresentado na tela não é de verdade, tamanha é a qualidade e o capricho da computação gráfica utilizada neste longa. Mesmo quando Mogli abraça ou passa a mão nos animais, o que muitas vezes evidencia que o animal é digital, tudo é tão orgânico que você é capaz de jurar que Neel Sethi estava, de fato, abraçando um lobo. Como já é costume da Disney, a animação dos animais foi totalmente baseada em minuciosas observações de animais de verdade interagindo na natureza, captando todas as nuances físicas de cada espécie para serem adaptadas para o cinema. Um primor de encher os olhos e que já torna o filme um forte concorrente para a categoria de Efeitos Visuais no Oscar de 2017. Os efeitos especiais também brilham na criação da selva, criando um ambiente totalmente plausível e rico que enriquecem a narrativa e o peso do que está sendo mostrado na tela.

Neel Sethi é um achado no filme. O garoto americano, que possui descendência indiana, consegue imprimir uma energia, um fascínio, um altruísmo e uma inocência em Mogli que encanta a quem assiste, mas, ao mesmo tempo, passa a sensação de que o personagem não é vulnerável e muito menos omisso, fazendo de Mogli um personagem tridimensional e agradável de ser acompanhado. Também impressiona a disposição física do ator, que cai em barrancos, corre demais e pula muito, me levando a conclusão de algo óbvio: não devem existir dublês para crianças. Mas o risco físico ao qual o ator está exposto só valoriza ainda mais sua perfomance. Fica a torcida para que Neel não seja relegado a personagens indianos no cinema, já que seus traços físicos são tão marcantes que se torna a primeira opção para qualquer futuro personagem indiano criança. O garoto mostra potencial em Mogli e ter atuado sozinho e ainda conseguir transmitir sensações, emoções e tudo o mais impressiona. No resto do elenco de dubladores o destaque fica por conta de Bill Murray como Baloo, que consegue colocar malandragem, bondade e carisma em um personagem que capta a atenção do público e que carrega boa parte da trama junto com Mogli. Ben Kingsley parece ter pego a função de mentor e guardião que Liam Neeson costumava interpretar nos cinemas. A pantera Bagheera de Kingsley é mais observadora que ativa, com seus conselhos e sua sabedoria que enriquecem a dinâmica com os outros personagem, principalmente Mogli. Idris Elba coloca toda a imponência da sua voz no vilão, interpretando Shere Khan de maneira ameaçadora e com presença de tela. Scarlett Johannsson possui apenas uma sequência como Kaa, mas a perfomance da atriz é impressionante, entregando uma personagem que claramente seduz pela sua voz. Lupita Nyong’o como a mãe adotiva de Mogli consegue transmitir carinho, zelo e também um senso de proteção digno de uma mãe loba. Giancarlo Esposito é eficiente ao transmitir autoridade e sabedoria ao seu personagem, o lobo líder da matilha Akela, sabendo claramente qual é a posição de cada animal na sociedade da selva.

Mogli – O Menino Lobo consegue contar uma história conhecida de maneira atual e relevante, além de possuir um primor técnico que o torna um filme lindo de ser assistido com uma narrativa agradável de ser acompanhada, contando ainda com um jovem ator no papel principal que consegue colocar uma energia e um voluntarismo em Mogli que chama a atenção.

NOTA: 9,0

 

 
INFORMAÇÕES
Título: Mogli – O Menino Lobo (The Jungle Book)
Direção: Jon Favreau
Duração: 105 Minutos
Lançamento: Abril de 2016
Elenco: Neel Sethi, Bill Murray, Ben Kingsley, Idris Elba, Lupita Nyong’o, Scarlett Johannsson e Giancarlo Esposito.


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Derek Moraes

Cinéfilo de carteirinha. Nerd de plantão para preencher as mentes ávidas por informações e conhecimento. Especialista em transformar simples conversas em viagens a Hogwarts, Terra Média, Westeros e uma galáxia muito, muito distante.