Crítica – Jogos Vorazes: A Esperança – O Final

[SEM SPOILERS]
Sinopse: A rebelião dos Treze Distritos contra a Capital está próxima do fim. Com poucos Distritos ainda ao lado do Presidente Snow (Donald Sutherland), a líder rebelde Alma Coin (Julianne Moore) decide colocar o símbolo da rebelião Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) nas linhas de frente da guerra com o objetivo de estimular os combatentes. Com a invasão à Capital cada vez mais próxima, Katniss e um pequeno grupo de combatentes, formado também por Gale Hawthorne (Liam Hemsworth) e Peeta Mellark (Josh Hutcherson), tem a missão de se infiltrar no coração de Panem e mostrar que o Tordo está cada vez mais vivo. Um acidente faz com que o grupo fique preso dentro da Capital, para o desespero de Haymitch Albernathy (Woody Harrelson) e Effie Trinket (Elizabeth Banks).
A série literária infanto-juvenil Jogos Vorazes escrita por Suzanne Collins é a mais importante narrativa voltada ao seu público alvo dos últimos anos. Tratando de temas como divisão da sociedade, opressão governamental, controle estatal dos meios de comunicação e transformação da carnificina entre jovens em espetáculo midiático, além de colocar como protagonista uma garota de opinião contundente e personalidade forte, a trilogia fez milhões de fãs desde o lançamento do primeiro volume em 2008, sendo o segundo foi lançado em 2009 e o terceiro em 2010. Vendo o potencial do material, logo o pequeno estúdio Lionsgate, responsável pela esquecível Saga Crepúsculo, comprou os direitos de adaptação da trilogia Jogos Vorazes para o cinema. Jogos Vorazes, lançado em 2012, é um ótimo filme, bem dirigido e realizado, com um elenco afinado e uma então jovem promessa como protagonista: Jennifer Lawrence. Jogos Vorazes: Em Chamas, lançado em 2013, melhorou tudo o que o primeiro já tinha de melhor, não perdendo gás mesmo com a mudança de diretor e possuía o trunfo de continuar com Jennifer Lawrence no elenco, agora estrela de Hollywood e oscarizada como melhor atriz por O Lado Bom da Vida (2012). Em 2014 foi lançado Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1, mantendo a qualidade do segundo filme, porém com uma narrativa mais lenta e com menos ação, dando mais espaço para o desenvolvimento dos personagens e o estabelecimento do conflito que estava por vir. Agora o último filme da série Jogos Vorazes: A Esperança – O Final tem o objetivo de fechar de maneira épica e competente a história da luta de Katniss contra a opressão do governo do Presidente Snow. E o que o diretor americano Francis Lawrence entrega para o espectador é um espetáculo do começo ao fim.
Francis Lawrence (sem nenhum parentesco com Jennifer) tem dez anos apenas de carreira como diretor, dirigindo três filmes antes da série Jogos Vorazes, com destaque para os bons filmes de ação Constantine (2005) e Eu Sou a Lenda (2007). O que Francis fez com a franquia de Katniss foi elevá-la a um patamar ainda superior ao do primeiro filme, dirigido por Gary Ross. Tudo ficou melhor, desde as interpretações, passando pelas sequências de ação e a sensação de urgência da história, além de melhorar o entendimento do espectador sobre Panem e sua história. Talvez Gary Ross tivesse feito o mesmo nos filmes seguintes, mas nunca saberemos. O fato é que Francis conseguiu estabelecer de vez a franquia Jogos Vorazes como algo pop, algo que extrapola o nicho de leitores e espectadores da série, atingindo e conquistando o público médio, aquele que não é seguidor das histórias de Katniss desde sempre, mas que faz questão de ir ao cinema assistir aos novos filmes. Além ser total influência do carisma e relevância de Jennifer Lawrence no cenário pop mundial, Francis tem o mérito de saber explorar todo o potencial da atriz em prol do papel. Neste quarto filme da série, Francis mantém o nível dos dois anteriores, mas capricha naquilo que faltou no capítulo anterior: as sequências de ação. Embora eu seja um defensor de Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1, ficou claro que o espectador não ficou feliz com o ritmo do filme. As sequências de ação são bem filmadas e realizadas, com um ritmo acelerado, porém entendível. Toda a sequência que se passa nos esgotos da Capital é claustrofóbica e incômoda para o espectador, mas é incrivelmente bem dirigida e culmina com uma sequência de ação das melhores do ano, em que o desespero dos rebeldes é latente e os movimentos e as lutas são bem coreografadas. Ao mesmo tempo, o longa não se apoia apenas na ação desenfreada, havendo momentos em que a ação é secundária à cena que está sendo apresentada. Os roteiristas sabem que a série Jogos Vorazes tem como maior trunfo os seus personagens e a sua história, então não erram ao dispensar estes elementos em prol da pirotecnia e barulho que seria um caminho mais fácil e que chamaria a atenção dos espectadores mais impressionáveis. 
A história deste último longa é simples e objetiva, fazendo com que subtramas desnecessárias não façam volume no roteiro. Basicamente seguimos os desdobramentos da guerra entre os Treze Distritos e a Capital e as consequências políticas que a vitória de um dos lados acarretará. Neste meio tempo, temos ainda o triângulo amoroso entre Katniss, Peeta e Gale e a readaptação de Peeta ao mundo depois de ser mantido refém e torturado pela Capital. O ritmo da narrativa é acelerado, sempre fazendo com que Katniss não fique em um mesmo lugar por muito tempo, dando dinamismo à narrativa. A partir do momento em que a equipe da heroína fica presa na Capital, a narrativa fica com cara de filme de terror, estilo Predador ou Alien, onde um grupo grande de pessoas vai se reduzindo a cada novo desafio enfrentado. A ideia de transformar as áreas mais externas da Capital em uma arena gigante com armadilhas, desafios e ameaças, é muito inteligente ao retratar outro Jogos Vorazes, só que este sendo ambientado na principal cidade do país. Nestas circunstâncias, a ameaça de perigo é real e o desconforto tanto dos espectadores quanto dos personagens é genuíno. O roteiro é perspicaz ao dar indícios para Katniss de que talvez não hajam tantas diferenças assim entre as ideias de Snow e Coin, e de que talvez os dois sejam duas faces de uma mesma moeda. O final do longa e, consequentemente, da série é corajoso e incômodo, fugindo em partes de um “Felizes para sempre”, mostrando que cada conquista possui um preço e que, como sempre foi evidenciado na série, o Tordo como símbolo da rebelião era a única coisa que poderia unir os Trezes Distritos em uma mesma causa.
A direção de arte continua contundente ao retratar a diferença de realidade entre os moradores da Capital e dos Treze Distritos; enquanto os moradores da principal cidade de Panem vivem em casas e apartamentos luxuosos, com jantares pomposos e opulentos, os mais pobres vivem em condições precárias de subsistência. Este mesmo contraste é percebido nos figurinos e maquiagem, com os ricos utilizando roupas, maquiagem e cabelos coloridos e chamativos, enquanto os moradores dos distritos vestem roupas na sua maioria brancas, pretas ou cinzas, não utilizando maquiagem ou cabelos elaborados ou tingidos. A equipe de maquiagem também merece créditos pelo design dos bestantes, as criaturas que a equipe de Katniss encontra nos esgotos de Panem, perfeitamente produzidos. A trilha sonora continua dramática com tons esperançosos, não fugindo muito do que foi feito nos longas anteriores. Os efeitos visuais são eficientes principalmente na recriação da Capital e sua arquitetura grandiosa, além da concepção das armadilhas espalhadas pela cidade.
A estrela Jennifer Lawrence continua perfeita como Katniss, interpretando uma personagem humana e falha, a qual não gostaria de estar na posição em que está, mas, uma vez lá, faz de tudo para ajudar os rebeldes a vencer a guerra. A entrega de Jennifer à personagem é digna de reconhecimento; em nenhum momento a atriz se poupa tanto física quanto emocionalmente, resultando em uma lindíssima e triste sequência, já no final do filme, em que a atriz liberta todo o sofrimento e angústia que a personagem estava guardando dentro de si. É uma atriz que sempre faz questão de mostrar que é gente como a gente, criando imediatamente uma conexão entre atriz e espectador que garante boa vontade para com ela em todos os longas. Josh Hutcherson está eficiente como de costume, interpretando um Peeta inicialmente perturbado e marcado pelas sequelas da tortura, mas que evoluiu emocionalmente durante a narrativa. Liam Hemsworth interpreta Gale com a apatia de sempre, não convencendo em uma cena chave no terceiro ato em que o personagem assume a culpa por um incidente e chora, fazendo o espectador ser tirado do longa pela falta de credibilidade que o ator entrega ao papel. Julianne Moore está mais ativa neste longa do que no anterior, interpretando Alma com frieza e calculismo, mostrando os reais interesses da líder da rebelião. Donald Sutherland continua perfeito como Snow. O veterano ator consegue misturar sadismo, frieza, elegância, crueldade e inteligência de maneira tão homogênea que é difícil odiar o personagem apenas levando-se em conta o próprio personagem, sem considerar todos os atos cruéis que o presidente realizou. Woody Harrelson e Elizabeth Banks somem durante o primeiro e o segundo ato, aparecendo apenas no desfecho, mas com relevância para a trama; principalmente Harrelson que interpreta Haymitch mais contido que o habitual e possui uma sequência importantíssima com Jennifer Lawrence, em que o antigo mentor demonstra total confiança em Katniss ao vê-la tomar uma decisão absurda e segui-la, sabendo que tudo fazia parte de um plano maior. O resto do numeroso e talentosíssimo elenco tem pouco tempo de tela e desenvolvimento, o que talvez seja o principal problema do longa, já que o excesso de personagens secundários interessantes e com pouco tempo de tela acaba frustrando o espectador por não poder acompanhá-los um pouco mais.
Mesmo os produtores dizendo que há a possibilidade de novos longas da franquia explorando novas histórias deste mesmo universo, é difícil não ficar triste ao acompanharmos a sequência final, que talvez seja brega demais, mas que passa os sentimentos necessários para o espectador entender as sequelas que a guerra deixou nas pessoas. A série Jogos Vorazes deixa saudades, momentaneamente, por ter abordado temas maduros e complexos voltados para o público infanto-juvenil, a partir de uma história coesa e relevante com um elenco afinadíssimo, resultando em quatro filmes acimas da média.
Nota: 9,0
TRAILER

INFORMAÇÕES
Nota: 9,0
Titulo Original: The Hunger Games: Mockingjay – Part 2

Titulo Nacional: Jogos Vorazes: A Esperança – O Final
Direção: Francis Lawrence
Duração: 137 Minutos 
Ano de Lançamento: 2015
Lançamento nos EUA: 20/11/2015
Lançamento no Brasil: 18/11/2015

Elenco: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Woody Harrelson, Elizabeth Banks, Julianne Moore e Donald Sutherland. 







Derek Moraes

Cinéfilo de carteirinha. Nerd de plantão para preencher as mentes ávidas por informações e conhecimento. Especialista em transformar simples conversas em viagens a Hogwarts, Terra Média, Westeros e uma galáxia muito, muito distante.