Crítica – Invasão a Londres

[SEM SPOILERS]

Sinopse: Após a morte do primeiro ministro britânico, os chefes de estado de diversas nações se dirigem a Londres para o funeral. O presidente americano Benjamin Asher (Aaron Eckhart), acompanhado pelo Serviço Secreto representado por Mike Banning (Gerard Butler) e Lynne Jacobs (Angela Bassett), se dirigem à cidade. Um atentado terrorista, arquitetado por Aamir Barkawi (Alon Moni Aboutboul) irá colocar a vida do presidente americano em risco e causar o caos em Londres, sendo necessária a ajuda da agente do MI6 Jacqueline Marshall (Charlotte Riley), enquanto o vice-presidente Allan Trumbull (Morgan Freeman) tenta achar uma solução para a crise. 


Confesso que quando assisti ao fraco Invasão à Casa Branca (2013) não imaginei que fosse possível ser lançada uma continuação sua. O primeiro longa custou US$ 70,0 Milhões e arrecadou mundialmente pouco mais de US$ 160,0 Milhões, tinha problemas de ritmo, de narrativa, vilões genéricos e uma produção bem pobre para os padrões atuais de Hollywood. E, para piorar a situação, no mesmo  ano de 2013 foi lançado O Ataque, cuja premissa é idêntica a Invasão à Casa Branca: terroristas invadem a residência oficial americana e o exército de um homem só precisa salvar o seu presidente. No entanto, O Ataque era melhor produzido, contou com um orçamento de US$ 150,0 Milhões, era mais impactante visualmente e tinha uma narrativa mais agradável. Como o mundo não é justo, este longa foi um fracasso de bilheteria, arrecadando mundialmente pouco mais de US$ 205,0 Milhões. Possivelmente, por ter sido lançado depois de Invasão à Casa Branca, O Ataque tenha gerado uma sensação de déjà vu no público, causando uma rejeição imediata a um filme com uma narrativa semelhante a outro assistido poucos meses antes.  


Para este Invasão a Londres foi escolhido o desconhecido diretor sueco-iraniano Babak Najafi, que faz a sua estreia em Hollywood. Babak tem em mãos o mesmo elenco principal do filme original e um roteiro um pouco mais inventivo também, embora o filme peque por ser ambicioso demais e, obviamente, não ter um orçamento para tal, já que este novo longa custou ainda menos que o anterior, US$ 60,0 Milhões. O diretor é inteligente ao aceitar um roteiro mais enxuto, com vinte minutos a menos que o longa de 2013, uma trama mais objetiva e dinâmica e personagens que conseguem minimamente prender a atenção no público. Babak também mostra um estilo visual interessante, principalmente em algumas sequências de ação. Mas as falhas do filme são tantas que a sensação que o espectador tem ao sair da sala de cinema é de ter assistido a um filme fraco. 


Levar a trama para Londres é um acerto e ambientar o conflito não em um local fechado, como a Casa Branca, mas sim nas ruas da cidade carrega o filme com um sensação de imprevisibilidade interessante, gerando um caos bem-vindo, ao mesmo tempo em que as táticas de guerrilha dos terroristas contribuem para criar tensão no espectador. O roteiro também é feliz ao eliminar ou diminuir as subtramas pessoais dos personagens, evidenciando aquilo que o espectador quer assistir em filme do tipo deste Invasão a Londres: ação desenfreada. As sequências de ação são bem trabalhadas e uma, em particular, envolvendo a invasão do exército britânico à base dos terroristas em Londres com seu início todo filmado em plano-sequência mostra um apuro visual do diretor que agrada quem assiste, além de evidenciar o controle que o profissional possui de todas as variáveis da sequência em questão, já que um simples deslize de algum ator inviabiliza toda o plano filmado. Mostrar todo o caos que os ataques terroristas na cidade causa favorece a sensação de urgência da trama, principalmente quando o espectador percebe que todas as esferas da polícia inglesa foram comprometidas. E mostrar os diversos líderes mundiais espalhados pela cidade antes do funeral e suas mortes também ajuda a aumentar a magnitude dos atentados. Todo o clima envolvendo a cidade e o antes dos ataques é bem realizado, deixando uma tensão paupável no ar, criando desconforto no espectador. 


Há algumas situações no filme que o público tem dificuldade de comprar, diminuindo a credibilidade daquilo que é assistido. Os terroristas estarem infiltrados na guarda do Palácio de Buckingham é algo difícil de engolir, principalmente pelos profissionais escolhidos para a função serem exaustivamente selecionados, investigados e treinados, já que irão proteger ninguém menos que a família real do país. Também é difícil de acreditar que, no caos em que Londres se encontra, a melhor decisão que a polícia metropolitana da cidade, a Scotland Yard, tem é de mandar os seus oficiais se retirarem para só deixar nas ruas os terroristas infiltrados, sendo que as consequências dessa ação nunca são mostradas. O presidente americano ter uma equipe enorme defendendo seus três helicópteros e nenhum deles se deslocarem para irem resgatar seu presidente que estava sob fogo terrorista é difícil de acreditar. Outras situações são tão telegrafadas que o espectador só espera que aconteçam para soltar aquele famoso pensamento confortante ‘Eu já sabia’. Determinado personagem tem sua morte marcada a partir do momento em que faz uma revelação pessoal a outro personagem. O nome da filha do personagem de Gerard Butler o espectador já sabe antes dele ser pronunciado no final do filme. As motivações do vilão ao menos são dignas: vingança. Nada de dominação mundial, lucros ou algo do gênero. Mas o personagem é tão mal explorado e nem participa da ação de fato que se torna descartável no contexto geral da trama. 


A montagem do longa é eficiente ao tornar a narrativa dinâmica o suficiente para prender a atenção do espectador e ao tornar as sequências de ação, como a perseguição de carro ao presidente americano na virada do primeiro para o segundo ato, enérgicas e visualmente impactantes. A fotografia é eficiente e se vale de seu maior trunfo: Londres. Seria necessário muito esforço para que a cidade ficasse feia na tela. A maneira como a capital é mostrada e sua beleza é evidenciada agrada quem assiste. A trilha sonora é esquecível, mas ao menos consegue pontuar o filme de maneira eficiente, gerando as sensações adequadas nos momentos adequados. Os efeitos especiais são péssimos e é aqui que o filme tenta dar um passo maior que a perna. Se você não tem um orçamento que te possibilite realizar efeitos especiais de qualidade, você tenta eliminar do roteiro a maioria das sequências em que este tipo de técnica é mais necessária. Invasão a Londres faz o contrário. Enche o filme de explosões e objetos, como helicópteros, criados por computação gráfica em que nenhum deles é minimamente bem feito. Em todo o momento em que tinha uma explosão na tela eu era tirado do filme, sentindo aquela famosa sensação ‘Mas é muito mentirosa essa computação gráfica’, prejudicando a minha imersão no longa. Com o orçamento de US$ 60,0 Milhões dá para realizar um longa urbano, minimalista, mas bastante dinâmico, empregando a geografia da cidade e a arquitetura das construções a seu favor. Se você assistir ao trailer abaixo, você já tem uma ideia da qualidade dos efeitos especiais do longa. 


Por incrível que pareça, o longa deixa o patriotismo de lado, enaltecendo o poderio militar inglês. Para concluir isso, basta pensar que para salvar o presidente americano, além do seu principal guarda-costas, um pelotão de elite do exército britânico foi responsável pelo ataque ao esconderijo terrorista. Essa valorização do estrangeiro, que muitas vezes ocorre também com a China e com a Rússia, é Hollywood atento aos mercados internacionais, que são responsáveis por uma fatia cada vez maior da arrecadação mundial de um filme. 


Gerard Butler está eficiente como o personagem principal. Na verdade, esse é o único papel em que o ator convence: o militar experiente e capaz de ser o exército de um homem só. Butler tem carisma o suficiente para carregar o filme e  sua dinâmica com Aaron Eckhart funciona, principalmente se levarmos em conta que boa parte da projeção é gasta com apenas os dois na tela. Eckhart também está bem como o presidente americano, colocando uma energia interessante em um personagem que também ajuda a narrativa a andar pra frente. Morgan Freeman continua na sua vida atual: fazer figuração em filmes grandes. O personagem do grande ator é descartável e em nada acrescenta à trama, ficando sentado enquanto assiste tudo acontecendo em Londres através de um telão. Angela Bassett está bem como a Chefe do Serviço Secreto, transmitindo preocupação e doçura na medida certa, embora sua personagem seja mais burocrática do que ativa de fato. Alon Moni Aboutboul tem pouco o que fazer com seu vilão de enfeite, que pouco aparece ou é importante, evidenciando outro defeito relevante do longa. Charlotte Riley está ótima como uma gente do MI6, mas sua personagem só aparece na metade final do filme, o que é um desperdício de uma atriz competente em um papel que de imediato capta a atenção do público, mas é pouco desenvolvido. 


Invasão a Londres é uma continuação que, por mais que tenha seus méritos técnicos e narrativos, nunca deveria ter sido feita. O original já não era grande coisa, e diminuir o orçamento para o segundo filme já mostra que o estúdio não botava fé no seu produto. Deve passar despercebido pelas salas de cinema do mundo todo.  

NOTA: 5,0

 

INFORMAÇÕES

Título: Invasão a Londres (London Has Fallen)
Direção: Babak Najafi
Duração: 99 Minutos  
Lançamento: Abril de 2016
Elenco: Gerard Butler, Aaron Eckhart, Morgan Freeman, Angela Bassett, Alon Moni Aboutboul e Charlotte Riley.



Derek Moraes

Cinéfilo de carteirinha. Nerd de plantão para preencher as mentes ávidas por informações e conhecimento. Especialista em transformar simples conversas em viagens a Hogwarts, Terra Média, Westeros e uma galáxia muito, muito distante.