Crítica – Capitão América: Guerra Civil

[SEM SPOILERS]

Sinopse: Após um incidente na Nigéria envolvendo os Vingadores, a ONU decide criar o Tratado de Sokovia com o intuito de controlar os seres humanos com dons especiais. A favor do acordo está Tony Stark (Robert Downey Jr.), indo contra o que Steve Rogers (Chris Evans) acha que é certo. Acontecimentos posteriores levam todo o mundo a buscar o Soldado Invernal (Sebastian Stan), envolvendo também o Príncipe T’Challa (Chadwick Boseman) de Wakanda. Nos bastidores de todos os acontecimentos está o misterioso Helmut Zemo (Daniel Brühl). A cisão nos Vingadores envolverá quase todos os super-heróis da Terra, incluindo o jovem Peter Parker (Tom Holland), que se vê colocado em situações que fogem da sua rotina. 


Quando Capitão América – Guerra Civil foi anunciado no final de 2014 junto com todos os filmes da Fase 3 do Universo Cinematográfico da Marvel (MCU) até 2019 a empolgação foi geral. Colocar os dois maiores expoentes do estúdio comandando duas equipes que iriam se digladiar defendendo valores que acham certos era algo que todo fã de super-heróis esperaria com muita ansiedade. Conforme o elenco começou a ser escalado a animação aumentava na mesma proporção que a preocupação. Como conciliar um elenco numeroso (são ao menos 16 personagens com relevância na história), com uma trama complexa, apresentar dois novos heróis do MCU (Homem-Aranha e Pantera Negra), dar continuidade à história de Capitão América – Soldado Invernal (2014) e, além de tudo isso, dar o tom de tudo o que virá pela frente até Vingadores: Guerra Infinita – Parte 1 (2018)? Os diretores Anthony Russo e Joe Russo conseguem entregar um resultado absolutamente incrível que não decepciona em nenhum momento e empolga de ponta a ponta.
 
Os irmãos Russo conseguem algo que está se tornando cada vez mais frequente no MCU: fazer com que o seu filme se sustente como filme de gênero e não um filme de super-herói. Não que ser classificado como um longa de super-herói seja um demérito, mas são poucos aqueles que conseguem ultrapassar o seu subgênero e atingir algum gênero clássico do cinema. Batman – O Cavaleiro das Trevas (2008) é o filme de super-herói com mais sucesso nesse quesito. O longa de Christopher Nolan se sustenta como um filme de suspense policial que, por acaso, tem o Batman no meio. Foi um feito que ainda enche os olhos e torna o longa de 2008 o melhor filme de super-heróis já realizado. Depois o gênero de espionagem em Capitão América – Soldado Invernal (2014), a ópera especial em Guardiões da Galáxia (2014) e o filme de assalto em Homem-Formiga (2015) seguiram o mesmo caminho. Guerra Civil, em muitos momentos, não parece um filme de super-heróis da Marvel e sim um filme de espionagem junto com um longa policial que, também por acaso, tem uma dúzia de seres humanos com dons especiais no meio. Dessa maneira os irmãos Russo aumentam a relevância e o impacto do que está sendo mostrado e conseguem agradar uma quantidade maior de espectadores, trazendo novamente um ar de novidade a um material que, para muitos, está ficando repetitivo. 
 
Anthony Russo e Joe Russo tem um currículo curto em Hollywood, tendo dirigido, de mais famosos, a descartável comédia Dois É Bom, Três É Demais (2006) e o ótimo segundo longa do Capitão América em 2014. Mas já caíram nas graças da Marvel que já deu para eles os dois próximos filmes dos Vingadores (2018 e 2019). A mão dos irmãos diretores americanos é boa e o que eles fazem com este Guerra Civil é seguir tudo o que deu certo no filme de 2014 e acrescentar mais personagens a uma trama que necessita disto, sem perder o foco central da narrativa que é o conflito ideológico entre Tony Stark e Steve Rogers. A capacidade que os diretores tem de coreografar e filmar sequências de ação em lugares apertados e muitas vezes utilizando o combate corpo a corpo é algo  que impressiona e fascina. Um exemplo disso foi o combate do Soldado Invernal utilizando uma faca e o Capitão América desarmado no longa anterior, que é considerada uma das melhoras sequências de combate com faca já realizadas na história do cinema. Em Guerra Civil há combates de todas as maneiras e opções, todos incrivelmente bem coreografados e alguns em lugares tão apertados, mas ao mesmo tempo tão bem utilizados a favor da sequência, que impressionam pelas possibilidades que os diretores encontram em um espaço tão diminuto como um apartamento ou uma praça de alimentação. Há um combate em particular envolvendo o Soldado Invernal e outros quatro personagens todos desarmados que agrada pela energia empregada e pela sucessão de golpes que o personagem precisa revidar. Um exemplo perfeito da capacidade de orquestrar uma sequência deste tipo que os diretores possuem e fazem uso dela com perfeição durante a projeção.
 
O principal feito do longa é fazer com que o espectador não fique a favor e nem contra nenhum dos lados da guerra civil. Lógico que o espectador pode concordar mais com determinado ponto de vista, mas ao mesmo tempo ele não consegue deixar de perceber que o outro lado também possui suas razões, tornando o conflito entre os heróis muito mais significativo. E isso é principalmente evidenciado no debate que ocorre entre os membros dos Vingadores, em que cada um expõe e embasa seu ponto de vista, a favor ou contra o Tratado de Sokovia, enriquecendo os personagens e tornando a formação das duas equipes algo muito mais orgânico e natural. Cada personagem toma o seu lado na disputa por questões ideológicas, com excessão do Homem-Aranha, mas ao mesmo tempo sofrem por terem que lutar contra seus companheiros e amigos, tornando alguns conflitos muito mais interessantes como Gavião Arqueiro contra Viúva Negra e Visão contra Feiticeira Escarlate. Assim como ocorreu em Batman V Superman – A Origem da Justiça (2016) a posição da mídia é relevante para mostrar a insatisfação da população para com os super-heróis, colocando mais elementos no caldeirão já fervente ocasionando pelas ações dos Vingadores.
 
Ainda mais do que em Vingadores – Era de Ultron (2015), os acontecimentos de Guerra Civil se passam ao redor da Terra, reforçando a importância dos super-heróis naquele universo e naquela sociedade, fazendo com que as consequências de seus atos tenham ecos globais. A trama passa pela Nigéria, Romênia, Alemanha e Rússia, com passagens ainda pela Inglaterra e a fictícia Wakanda. A Marvel está devendo uma visita à América do Sul e à Oceania ainda. A inserção dos personagens ocorre de maneira natural na trama e todos têm uma função na narrativa, movendo-a de alguma maneira. Apenas o personagem de Martin Freeman é dispensável, não contribuindo em nada para o filme e não possuindo função alguma. Os outros personagens vão sendo apresentados e reapresentados aos poucos e alguns deles só são inseridos para participarem do conflito entre as equipes, mas é algo que este filme exige e faz com competência o suficiente para não parecer que eles estão lá apenas para fazerem volume.
 
O vilão do filme talvez seja aquele que possui motivos mais humanos para justificar suas ações em todo o MCU. As motivações de Helmut Zemo, que só são reveladas no final do filme, fazem sentido para o espectador e chegam até a emocionar de certa maneira. E o mais interessante é o papel que o personagem tem na guerra civil, que não é algo que o espectador espera antes de assistir ao filme. Interessante também é como o roteiro quebra as expectativas do público, tornando tudo mais inesperado. Em determinado momento da narrativa sabemos qual o objetivo do vilão na Rússia e o espectador na hora já desenha o que seria o confronto final do filme, só para depois ser surpreendido com acontecimentos que inviabilizam tudo aquilo que ele tinha imaginado. São mecanismos de roteiro que tem o objetivo de deixar o espectador desconfortável e inseguro sobre o que vai acontecer, tirando-o da sua zona de conforto.
 
A montagem do filme é perfeita por manter uma constante sensação de urgência. Toda a história do filme se passa em dois ou três dias aparentemente, tornando tudo mais enérgico e menos previsível. Todas as decisões precisam ser tomadas com urgência, não há tempo para pensar e organizar estratégias. Esse tipo de narrativa consegue manter a energia sempre em um nível alto e prender a atenção do espectador. A trilha sonora é eficiente e mantém a tradição de resgatar os temas clássicos dos personagens vez ou outra, nesse caso o simpático tema do Capitão América apresentado no primeiro longa de 2011. A trilha que acompanha o confronto final entre três personagens na Rússia é evocativa e dramática, conseguindo ressaltar todo o peso dramático e a relevância daquilo que está acontecendo. Os efeitos especiais são o principal ponto fraco do filme por estarem irregulares. Há momentos em que fica visível que o cenário que está atrás dos personagens foi criado digitalmente, como algumas das sequências que se passam no aeroporto alemão, incomodando o espectador que se vê tirado do filme por perceber que aquilo que está vendo não é real. Alguns dos momentos em que o Pantera Negra está em ação também passam a sensação que o personagem não é real, e realmente não é naqueles momentos, mas os efeitos especiais poderiam estar um pouco mais lapidados para entregar um filme que tem grande parte do seu atrativo e impacto fundamentados em suas qualidades técnicas. Em um momento, no entanto, os efeitos especiais são impecáveis: no rejuvenescimento facial de Robert Downey Jr., fazendo com que o ator de fato aparente ter 25 anos a menos sem nenhuma contestação. Feito semelhante ao que foi conseguido com o rejuvenescimento de Michael Douglas em Homem-Formiga (2015).
 
O grande confronto entre as equipes ocorre no já citado aeroporto alemão e é sensacional pela construção do conflito. A batalha é filmada de tal maneira que o espectador consegue entender tudo o que está acontecendo e acompanhar os personagens e seus conflitos de maneira plena. É bem verdade que alguns personagens, como a Feiticeira Escarlate e o Visão, são subaproveitados de maneira geral no conflito, possivelmente por serem os super-heróis mais poderosos das equipes, ainda mais se levarmos em conta que o humanoide carrega consigo a Joia da Mente, mas no geral o confronto é espetacular e enche os olhos do espectador que aproveita cada segundo do que está vendo. Sem dúvidas é uma das melhores sequências de ação de todos os tempos. 
 
Chris Evans consegue trazer novas nuances para um personagem que muitos acham sem graça, mas que em Guerra Civil tem o seu lado menos escoteiro explorado. O ator é eficiente em colocar carinho, amizade, fidelidade e persistência em seu Capitão América, sendo que sua relação com o Soldado Invernal é crível e fundamental para estabelecer as bases da narrativa. Robert Downey Jr. está mais contido que de costume, fazendo com que seja visível que seu Tony Stark carrega mais peso e dramas do que o usual. Ao contrário do que havia sido especulado, o tempo de tela de Robert Downey Jr. não é pequeno e sua participação não é pontual. O ator tem bastante tempo de tela e seu personagem obviamente é fundamental para movimentar a trama. E mais interessante ainda é mais uma parte do  seu passado que vêm à tona, como a sua relação instável com seu pai. Daniel Brühl está ótimo como Helmut Zemo, conseguindo soar misterioso e ameaçador ao mesmo tempo. Um grande trabalho de um ator promissor que está cada vez mais conseguindo espaço em Hollywood. Para os mais curiosos, recomendo assistirem Rush – No Limite da Emoção (2013) em que Daniel Brühl interpreta o lendário piloto de Fórmula 1 Nikki Lauda de maneira perfeita. Sebastian Stan está muito bem como Bucky Barnes, o Soldado Invernal, e o ator consegue transmitir toda a perturbação mental do personagem e toda a sua instabilidade emocional. Também fica o destaque para a sua entrega física, já que o ator participa de várias sequências de ação e se entrega de cabeça e faz isso muito bem. Chadwick Boseman entrega o mais imponentes dos heróis da Marvel até agora. Seu Pantera Negra exala um ar de autoridade e poder digno de um monarca que de fato T’Challa é. A disposição física do ator também merece destaque e seu personagem possui algumas das melhores sequências de ação do longa, já que o Pantera Negra possui um estilo de luta próprio e ainda inédito para os fãs. Mas, de fato, o grande destaque fica por conta de Tom Holland, o novo Peter Parker. Particularmente, eu estava torcendo para que Asa Butterfield ganhasse a disputa para interpretar o personagem. Não porque Tom seja um mau ator, pelo contrário, mas, para mim, Asa possui um físico e um rosto mais marcantes e possui uma certa aura de mistério que enriqueceria o personagem. Com Tom escolhido, também era certeza de um ator promissor interpretando um dos personagens mais icônicos do cinema. E o novo Peter Parker/ Homem-Aranha tem potencial para se tornar o melhor que o cinema já viu. A energia, a juventude e a inocência que o ator consegue colocar no personagem é digno de aplausos e, isso tudo, sem perder o seu senso de justiça e, como o próprio Peter diz para Tony, a sua necessidade de ajudar quem precisa. A própria sequência de introdução do personagem é um exemplo de como apresentar um personagem com o mínimo de informações e o máximo de sucesso através de diálogos rápidos, exposição na medida certa e dois personagens interagindo de maneira objetiva e orgânica. 
 
Capitão América – Guerra Civil deixa o UCM bem encaminhado, principalmente os futuros filmes do Homem-Aranha (2017) e Pantera Negra (2018), deixando um caminho que oferece algumas oportunidades que só devem se concretizar em Vingadores: Guerra Infinita – Parte 1 (2018). O longa beira a perfeição e é uma aula de como administrar diversos personagens, diversas subtramas e muita expectativa sem perder o foco principal, entregando um filme sem gordura e que só peca por alguns aspectos técnicos, mas que em nada ofusca o sucesso retumbante que os irmãos Russo conseguiram entregar.

 

NOTA: 10,0

 

INFORMAÇÕES

Título: Capitão América – Guerra Civil (Captain America – Civil War)
Direção: Garreth Edwards
Duração: 147 Minutos
Lançamento: Maio de 2016
Elenco: Chris Evans, Robert Downey Jr., Daniel Brühl, Sebastian Stan, Tom Holland e Chadwick Boseman.


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Derek Moraes

Cinéfilo de carteirinha. Nerd de plantão para preencher as mentes ávidas por informações e conhecimento. Especialista em transformar simples conversas em viagens a Hogwarts, Terra Média, Westeros e uma galáxia muito, muito distante.