Crítica – 007 Contra Spectre

[SEM SPOILERS]

Sinopse: James Bond (Daniel Craig) continua à procura de respostas depois dos acontecimentos de 007 – Operação Skyfall. Após uma missão chamativa na Cidade do México, Bond é repreendido por M (Ralph Fiennes), chefe do MI6, que está sofrendo pressão do político Max Denbigh (Andrew Scott) para acabar com a divisão dos agentes secretos 00. As investigações de Bond o levam à organização terrorista Spectre comandada por Franz Oberhauser (Christoph Waltz), que possui ligação com o passado do agente secreto britânico. Para destrinchar toda a trama envolvendo a organização terrorista, Bond irá contar com a ajuda de Q (Ben Wishaw) e Eve Moneypenny (Naomi Harris), além de conhecer a psicóloga Madeleine Swann (Léa Seydoux).

Daniel Craig chega ao seu quarto e possivelmente último filme no papel de James Bond neste 007 Contra Spectre. Desde a sua escolha, em 2005, o ator inglês precisa provar a cada novo longa no papel que é digno de estar lá. Quando foi anunciada a sua escolha para substituir Pierce Brosnan, a internet veio abaixo. Primeiro há de se ter em mente que James Bond faz parte da cultura pop mundial e é praticamente um patrimônio nacional da Grã Bretanha, ou seja, tudo o que envolve a sua série é alvo de gigantescos holofotes. Daniel Craig é loiro e troncudo, tem orelhas de abano e olhos claros. Não fazia, em 2005, o perfil físico de James Bond que estava no imaginário coletivo. Choveram críticas à sua escolha, de modo que seus antecessores tiveram que vir a público para defendê-lo. Em 2006 foi lançado 007 – Cassino Royale e Craig presenteou o mundo com o melhor James Bond desde Sean Connery, calou os críticos e entregou um personagem mais humano que o habitual, com falhas, que sangra e se machuca, entra na briga de corpo e alma. Um James Bond do novos século e, acima de tudo, um James Bond da “escola” Jason Bourne, já que foram os três filmes do espião americano que solidificaram novas diretrizes para todos os filmes de agentes secretos e espionagem a partir de então. 

007 – Cassino Royale (2006) é um belíssimo filme, mostrando James Bond em início de carreira, errando muito e mais rebelde que o habitual. Foi o filme perfeito para mostrar o potencial de Daniel Craig no papel e o começo de uma trama que se estenderia pelos três filmes seguintes, algo inédito na série. 007 – Quantum of Solace (2009) é um desastre em quase todos os aspectos. A história é fraca, os vilões sofríveis, o ritmo é irregular e ninguém lembra dele depois que sai da sessão. Só o que se salva são as boas sequências de ação e Craig novamente bem no papel. Mas é um filme esquecível em todos os aspectos. Em 2012 tivemos 007 – Operação Skyfall, um dos melhores longas da série e um filme memorável em quase tudo. O longa expande a história de James Bond além do convencional, possui um vilão que se encaixa perfeitamente na história, tem sequências de ação belíssimas e um elenco afinado, onde ninguém destoa. Foi o primeiro longa da série a ganhar um Oscar, no caso foram dois de uma vez. Agora temos 007 Contra Spectre, que promete unir todas as pontas da história do James Bond de Daniel Craig e fechar com chave de ouro a encarnação mais rentável financeiramente do agente secreto britânico.  

Para dirigir este novo longa temos o inglês Sam Mendes, o mesmo diretor do longa anterior. Mendes é prestigiado em Hollywood por filmes premiados como Beleza Americana (1999) e Estrada para a Perdição (2002). O diretor é conhecido por saber escolher bem seus atores e tirar ótimas interpretações deles. Neste novo 007, Mendes demonstra a mesma segurança que demonstrou no longa de 2012. Ele sabe que está trabalhando com um personagem com bagagem histórica e a respeita. Dirige sequências belíssimas, com destaque para o plano-sequência que abre o longa na Cidade do México. A própria concepção da sequência, toda passada durante a festa do Dia dos Mortos, é de assustar pela grandiosidade do local e a quantidade de pessoas envolvidas. O diretor também consegue tirar máximo proveito mesmo em cenas modestas, como aquela carregada de suspense que marca o primeiro encontro de James Bond com a organização Spectre em um castelo em Roma. A escolha das locações, uma marca registrada da série, é bem realizada e faz o agente secreto passar pelo México, Itália, Marrocos e, claro, Inglaterra. Além de ser um atrativo a parte para o espetador, as locações em países e continentes diversos ajuda a dar a dimensão das ações e da influência de James Bond. 

A técnica do filme é bem executado, com destaque para a clássica trilha sonora de 007 que pontua algumas sequências do longa. A canção da sequência de créditos inicias é cantada por Sam Smith, que faz um bom trabalho. As sequências de ação são bem coreografadas, com destaque para aquela que se passa dentro de um trem e a já citada sequência de abertura na Cidade do México, que também merece destaque pela direção de arte e figurino. Os efeitos especiais são utilizados com moderação, muitas vezes não convencendo, como na sequência que mostra a luta dentro de um helicóptero e as acrobacias da aeronave no céu. 

A história de Spectre, por sua vez, é problemática. Por tentar amarrar todas as pontas soltas dos três longas anteriores da série, a trama se torna vazia. Em nenhum momento o espectador se vê realizado por conseguir entender o panorama geral da história do Bond de Daniel Craig, não fazendo muito sentido esta inédita conexão de histórias de longas diferentes. Fica claro que os filmes do 007 funcionam melhor independentes entre si, como quase sempre foi feito. O vilão também sofre de pouco tempo em tela, já que em apenas três sequências podemos vê-lo em ação, deixando transparecer que o potencial do personagem está sendo guardado para futuras sequências. A subtrama que envolve a tentativa do governo britânico de acabar com os agentes secretos 00 e estabelecer um programa mundial de monitoramento de ameaças funciona mais para dar tempo e importância maiores a personagens secundários como M, embora uma pequena reviravolta da história seja telegrafada e o espectador mate a charada antes dela ser revelada. A Bond girl da vez é a melhor dos últimos três longas, embora empalideça perante a Vesper Lynd (Eva Green) de Cassino Royale. Algumas súbitas mudanças de comportamento e pensamento da personagem são complicadas de engolir e surgem forçadas, mostrando basicamente um distúrbio bipolar da nova Bond Girl. Para exemplificar sem dar spoilers, em um um momento a personagem renega o pai por tê-la infligido enorme sofrimento emocional no passado. Na cena seguinte, a personagem se voluntaria para descobrir mais sobre o passado do pai junto de James Bond. 

Daniel Craig está mais confortável do que nunca no papel de James Bond, embora em algumas cenas o conforto seja tanto que dá a impressão que o ator não aguenta mais interpretar o agente secreto britânico, como ele próprio já declarou em entrevistas recentes. É uma interpretação voluntariosa, sem frescuras e dinâmica, reafirmando novamente o ator como tão memorável ou, para alguns, superior na pele de James Bond quanto Sean Connery. Christoph Waltz continua na sua interminável saga de interpretar vilões no cinema, que começou em Bastardos Inglórios (2009). O ator está mais contido do que de costume, interpretando um vilão frio, rancoroso e calculista. Léa Seydoux faz uma Bond girl mais voluntariosa do que a maioria e o espectador consegue comprar a relação dela com James Bond, que não surge forçada ou apenas mais uma no histórico do 007. A atriz tem uma beleza europeia marcante, mas o longa tem o mérito de não abusar apenas do físico de Léa Seydoux para a construção da personagem, o que também mostra a capacidade técnica de atuação da atriz. Ralph Fiennes interpreta um M mais participativo do que o habitual e mais mal humorado também, embora seja tão pragmático e cauteloso quanto a M vivida anteriormente por Judi Dench. Naomi Harris volta no papel de Eve Moneypenny, com uma interpretação leve, porém funcional para a trama. A atriz não possui muito tempo em tela, mas é carismática ao ponto do público se importar com a personagem. O mesmo acontece com o Q de Ben Wishaw, que surge como discreto alívio cômico na trama, mas suas qualidades analíticas e sua mente ágil são bem representadas no longa. Andrew Scott faz o tradicional burocrata do governo, mas esse é um papel tão batido em filmes de agentes secretos e filmes de espionagem que o espectador pouco se importa com o personagem, embora o ator não comprometa com sua atuação. 

Contando ainda com um vilão brutamontes com poucas palavras interpretado por Dave Bautista, 007 Contra Spectre fecha a quadrilogia dos filmes de James Bond de Daniel Craig de maneira eficiente e satisfatória. Não chega a ser tão redondo e fluído quanto Cassino Royale e Operação Skyfall, mas não decepciona o fã mais fervoro e nem o espectador que está em busca de um ótimo filme. Daniel Craig possivelmente se despede da série 007, mas será lembrado por interpretar o mais humano e visceral James Bond.

Nota: 8,0
TRAILER

INFORMAÇÕES

NOTA: 8,0
Titulo Original: Spectre
Titulo Nacional: 007 Contra Spectre
Direção: Breck Eisner 
Duração: 148 Minutos 
Ano de Lançamento: 2015
Lançamento nos EUA: 06/11/2015 

Lançamento no Brasil: 05/11/2015

 
Elenco: Daniel Craig, Christoph Waltz, Léa Seydoux, Ben Wishaw, Naomi Harris, Ralph Fiennes, Andrew Scott. 






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Derek Moraes

Cinéfilo de carteirinha. Nerd de plantão para preencher as mentes ávidas por informações e conhecimento. Especialista em transformar simples conversas em viagens a Hogwarts, Terra Média, Westeros e uma galáxia muito, muito distante.